sábado, 15 de setembro de 2018

3 Clássicos Poemas de Amor sobre Musa

Poemas de Amor sobre Musa. A ideia de musas, deusas gregas sempre esteve presente na poesia e na literatura. Musa tem um significado marcante no imaginário coletivo masculino. Alguns autores como Gonçalves Dias e Machado de Assis escreveram sobre o tema. A musa é uma princesa música aos ouvidos. 

Poemas sobre Musa


MUSA CONSOLATRIX

(1864)
Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
 Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

 Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
 Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
 Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
 À enchente das angústias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.
 Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
 Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
 Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e terá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro! 

Machado de Assis



OS LÊMURES

Ó minha musa _ imaculada e santa!
Deixa um momento os sonhos teus benditos,
Despe os teus véus de noiva do Ideal.
Deixa-os, despe-os e canta
Sobre as ruínas trágicas do mal
As almas arruinadas dos malditos!...
[188-] 

Euclides da Cunha
Ondas e outros poemas





Clássicos Poemas de Amor sobre Musa
by Pixabay


A Minha Musa


Gratia, Musa, tibi; nam tu solattia praebes.
-- Ovídio
Minha Musa não é como ninfa
Que se eleva das águas - gentil -
Co'um sorriso nos lábios mimosos,
Com requebros, com ar senhoril.

Nem lhe pousa nas faces redondas
Dos fagueiros anelos a cor;
Nesta terra não tem uma esp'rança,
Nesta terra não tem um amor.

Como fada de meigos encantos,
Não habita um palácio encantado,
Quer em meio de matas sombrias,
Quer à beira do mar levantado. 

Não tem ela uma senda florida, 
De perfumes, de flores bem cheia,
Onde vague com passos incertos,
Quando o céu de luzeiros se arreia.
___________ 


Não é como a de Horácio a minha Musa;
Nos soberbos alpendres dos Senhores
Não é que ela reside;
Ao banquete do grande em lauta mesa,
Onde gira o falerno em taças d'oiro,
Não é que ela preside.

Ela ama a solidão, ama o silêncio,
Ama o prado florido, a selva umbrosa
E da rola o carpir.
Ela ama a viração da tarde amena,
O sussurro das águas, os acentos
De profundo sentir.

D'Anacreonte o gênio prazenteiro,
Que de flores cingia a fronte calva
Em brilhante festim,
Tomando inspirações à doce amada,
Que leda lh'enflorava a ebúrnea lira;
De que me serve, a mim?

Canções que a turba nutre, inspira, exalta
Nas cordas magoadas me não pousam
Da lira de marfim.
Correm meus dias, lacrimosos, tristes,
Como a noite que estende as negras asas
Por céu negro e sem fim.

É triste a minha Musa, como é triste
O sincero verter d'amargo pranto
D'órfã singela;
E triste como o som que a brisa espalha,
Que cicia nas folhas do arvoredo
Por noite bela.

É triste como o som que o sino ao longe
Vai perder na extensão d'ameno prado
Da tarde no cair,
Quando nasce o silêncio involto em trevas,
Quando os astros derramam sobre a terra
Merencório luzir.

Ela então, sem destino, erra por vales,
Erra por altos montes, onde a enxada
Fundo e fundo cavou;
E pára; perto, jovial pastora 
Cantando passa - e ela cisma ainda
Depois que esta passou.

Além - da choça humilde s'ergue o fumo
Que em risonha espiral se eleva às nuvens
Da noite entre os vapores;
Muge solto o rebanho; e lento o passo,
Cantando em voz sonora, porém baixa,
Vêm andando os pastores.

Outras vezes também, no cemitério,
Incerta volve o passo, soletrando
Recordações da vida;
Roça o negro cipreste, calca o musgo,
Que o tempo fez brotar por entre as fendas
Da pedra carcomida.

Então corre o meu pranto muito e muito
Sobre as úmidas cordas da minha Harpa,
Que não ressoam;
Não choro os mortos, não; choro os meus dias
Tão sentidos, tão longos, tão amargos,
Que em vão se escoam. 

Nesse pobre cemitério
Quem já me dera um lugar!
Esta vida mal vivida
Quem já ma dera acabar!

Tenho inveja ao pegureiro,
Da pastora invejo a vida,
Invejo o sono dos mortos
Sob a laje carcomida.

Se qual pegão tormentoso,
O sopro da desventura
Vai bater potente à porta
De sumida sepultura:

Uma voz não lhe responde,
Não lhe responde um gemido,
Não lhe responde urna prece,
Um ai - do peito sentido.

Já não têm voz com que falem,
Já não têm que padecer;
No passar da vida à morte
Foi seu extremo sofrer.

Que lh'importa a desventura?
Ela passou, qual gemido
Da brisa em meio da mata
De verde alecrim florido.

Quem me dera ser como eles!
Quem me dera descansar! 
Nesse pobre cemitério
Quem me dera o meu lugar,
E co'os sons das Harpas d'anjos
Da minha Harpa os sons casar! 
Gonçalves Dias


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