sábado, 15 de setembro de 2018

4 Poemas sobre Saudade na literatura clássica

Poemas e poesias sobre saudade trazem frases bonitas para os pais, amizade e amor relembrando uma época vivida.

 Poemas sobre Saudade da literatura clássica

SAUDADES.

Nas horas mortas da noite
Como é doce o meditar
Quando as estrelas cintilam
Nas ondas quietas do mar;
Quando a lua majestosa
Surgindo linda e formosa,
Como donzela vaidosa
Nas águas se vai mirar!

Nessas horas de silêncio,
De tristezas e de amor,
Eu gosto de ouvir ao longe,
Cheio de mágoa e de dor,
O sino do campanário
Que fala tão solitário
Com esse som mortuário
Que nos enche de pavor.

Então – proscrito e sozinho –
Eu solto aos ecos da serra
Suspiros dessa saudade
Que no meu peito se encerra.
Esses prantos de amargores
São prantos cheios de dores:
– Saudades – dos meus amores,
– Saudades – da minha terra !
....1856

Gonçalves Dias
Prinaveras



Leia também:  7 Poemas clássicos sobre o Amor



OS DOIS HORIZONTES

A M. FERREIRA GUIMARÃES
(1863)
Dois horizontes fecham nossa vida:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro,—
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais;
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? – Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? – Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

Dois horizontes fecham nossa vida.

Machado de Assis - Crisálidas



MEUS OITO ANOS.

Oh! Souvenirs! Printemps! Aurores!
V. Hugo.
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores.
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras.
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis! 

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
.....................................................
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Lisboa – 1857. 

Gonçalves Dias
Primaveras






Poemas sobre Saudade


SUSPIROS E SAUDADES


Depois de tantas perdas só restou-me
 Na soledade,
Em que deixou-me a dor, para consolo
 Roxa saudade.

Esta flor, tão estéril nos prazeres,
 Quando em retiro
Quase sempre do seio magoado
 Brota um suspiro.

Achava estes suspiros e saudades
 Encantadores,
Embora fossem flores da tristeza,
 Sempre eram flores.

Demais, quem tem das ditas deste mundo
 Chegado ao termo,
Quem traz de ingratidões e desenganos
 O peito enfermo;

Quem tem com a flor que às almas venturosas
 Do prazer fala?
Que ao ver-lhe o coração trajando luto
 Traja de gala?

A tristeza que tendes, minhas flores,
 É vosso encanto.
E como éreis formosas orvalhadas
 Pelo meu pranto!

Mas secastes também?! Faltou-vos água?
 Demais tivestes. 
Fogo? Desde nascidas sempre em chamas
 De amor vivestes.

Secastes? Com razão, que destas flores
 Certo não é
Verdadeiro alimento, água nem fogo
 Faltando a fé.

Vivem com fogo e água, se dos prados
 Nascem no chão;
Mas não se flores d’alma dentro d’alma
 Nascendo vão.

Quando morta a f’licidade,
A fé expira também!
Saudades de que se nutrem?
Os suspiros que alvo têm?

Morta a fé, vai-se a esperança,
Como pois viver pudera
Saudade que não tem crença,
Saudade que desespera?

Onde as graças do passado,
Se altivo gênio sanhudo
O cepticismo nos brada,
Foi mentira, engano tudo?

Em nada creio do mundo:
Ludíbrio da desventura
A felicidade me acena,
Só de um ponto — a sepultura.

Morreram minhas saudades,
E meus suspiros calados
Dentro d’alma pouco a pouco
Vão morrendo sufocados

Laurindo Ribeiro



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