Poema Eterna Mágoa, de Augusto dos Anjos.

sábado, 11 de maio de 2019

O PARAÍSO DOS MEDÍOCRES, de Euclides da Cunha


O PARAÍSO DOS MEDÍOCRES 


(Uma página que Dante destruiu)
Perto do inferno existe uma paragem
Onde cai monótona e ressoa
Uma torrente enregelada e dura
Sulcando a pedra na erosão eterna.
Fomos por ela em fora, lento e lento
Vacilantes subindo. Mas no alto
Precisamente quando a minha vista
Divisava dos céus tão anelados
Um fragmento longínquo, vi-me só.
Inopinadamente se evadira
O bucólico guia que me dera
O clarão de sua alma incomparável,
Entre as sombras dos giros infernais.
Então alucinado, o peito opresso,
A fronte em fogo, onde batiam ríspidas
As lufadas friíssimas do abismo,
Atirei entre os ecos apagados
Das vozes do demônio uma súplica:
Virgílio. E estas três sílabas belíssimas
Rolaram longamente no silêncio
Como se no silêncio desabasse
Uma falange de cristais partidos.
Mas não as repeti: de uma vereda
À esquerda, junto ao círculo Judas,
Vi que surgiu uma figura estranha,
Homem ou gênio, e todo desgracioso
Lembrava um sambenito: a fronte nua
Escampada e brunida completava
A face cheia e lisa sem refegos,
Sem um só desses vincos, dessas rugas
Que são os golpes do buril do espírito
Sobre os blocos de músculos e nervos.
Sorria e eu vi seus dentes magníficos
Numa expressão alvar. Aproximou-se.
Disse-lhe então: Quem sois? Por que acudistes?
Quando eu chamei por outro tão diverso?
Teme um momo adorável, agitou
Num gesto longo de elegância altiva
A véstia e o porte erecto e o olhar fulgente
E o rosto novamente derramando-se
Num riso imbecil e triunfante
Volveu pondo-me ao ombro a mão cuidada:
"Sou Marcellus Pompônio, 'o purista'
O guia que me trouxe, esse Virgílio,
Esta ama-seca que apelidas tanto
Não me suportaria; eu sou capaz
De mostrar solecismos nas "Geórgicas"...
Fez bem: fugiu. E tu certo conheces
O gênio prodigioso que venceu
Certa causa notável, apontando
Um erro de gramática nos autos:
Sou eu. Sou imortal... Tu és feliz,
Lucraste com a troca. Folga, ri,
Agradece ao teu Deus e dá-me o braço.
Eu vou mostrar o que outrem não faria.
Já viste o inferno, vou levar-te agora
Ao purgatório e ao céu. Mas antes deles
Há uma terra ideal onde domina
A santa mediania de virtude
E se chama o 'Paraíso dos Medíocres' ".
"É ali", disse. E depois me foi levando
Por um trilho escarpado. a breve trecho,
Vingando um cerro abrupto, tive em frente
O mais belo país que eu inda vira
Que terra encantadora. O meu olhar
Desatou-se folgando na amplitude
Dos horizontes vastos onde eternos
Fulgores de uma primavera eterna
Se revezam co'as noites estreladas.

[1903?]

O PARAÍSO DOS MEDÍOCRES, de Euclides da Cunha


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NUM CARTÃO POSTAL, de Euclides da Cunha

NUM CARTÃO POSTAL

 [Em que se vê uma mulher, com roupão de banho, lendo numa praia]
A Reinaldo Porchat

Lê?... Não lê. Aquele ar não é por certo
De quem medita. É o ar de quem atrai.
E se qualquer de nós, naquelas praias,
Aparecesse, quedaria incerto,
Sem saber distinguir quem mais nos trai
_ Entre a insídia de uma onda ou de um afago
Se o velho mar misterioso e vago,
Ou esse abismo de roupão e saias!

Guarujá, 30 jul. 1904

NUM CARTÃO POSTAL, de Euclides da Cunha


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Portal Domínio Público

DEDICATÓRIA A LÚCIO DE MENDONÇA, de Euclides da Cunha

DEDICATÓRIA A LÚCIO DE MENDONÇA


Em falta de um 'postkarte', iluminura
Que enquadre do que penso ou sinto a imagem,
Em relevo, na artística moldura
De um trecho fugitivo de paisagem _

Aí vai, para saudá-lo no remanso
De um lar, onde terá digno conchego,
Este caboclo, este jagunço manso
_ Misto de celta, de tapuia e grego...

1903

DEDICATÓRIA A LÚCIO DE MENDONÇA, de Euclides da Cunha


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Portal Domínio Público

PÁGINA VAZIA, de Euclides da Cunha

PÁGINA VAZIA


Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo, inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De guerra despiedada e aterradora.

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
Que possa figurar dignamente
Em vosso álbum gentil, minha senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
De nossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde, nesta folha lesse
Perguntaria: "Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes?"

1897

PÁGINA VAZIA, de Euclides da Cunha


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FRAGMENTOS DE POESIA, de Euclides da Cunha

FRAGMENTOS DE POESIA 


[Publicado em "O Imparcial", Rio de Janeiro, 20 jan. 1929]
A Coelho Neto

De um lado o Atlântico e do outro lado as serras
Longas, indefinidas, perlongando-o;
E aquém das serras nos planaltos largos,
Um mundo ainda ignoto! Os rios longos
Recortam-na profusos, ora calmos,
Volvendo a correnteza imperceptível,
Ora cheios, rolando no...
O soberbo estridor das cachoeiras...
As grandes matas verde-negras vastas
... de frutos e de flores
Desafiam do azual as pompas todas.

Que terra encantadora... Mas enquanto
O meu olhar se desatava livre
No desafogo dos espaços amplos
O ridículo mortal tolhia o passo
E imóvel sobre o cerro em que jazíamos
Abarcava num gesto o espaço todo:
Conforme vês 'a terra é longa e grossa'

E atestam na pujança com que surgem
A riqueza de um solo incomparável
Em que o cultivador sem mais resguardos
Com algumas foiçadas e um bocejo
Garante o pão à prole e pode dar-se
Ao culto sacrossanto da Preguiça.
E nada o preocupa: a fauna é frágil,
Traiçoeira e cobarde; não há tigres,
Régios tigres listrados; nem leões,
Nada das formas colossais e rudes
Feitas para guardarem, consorciadas,
A feridade e a força... Tudo médio
Tudo uma redução do que há alhures
O elefante é tapir tardo e medroso
O tigre de Bengala é a suçuarana
Cobarde e fugitiva; o orango bruto
É o sagüi famíneo e pulha; e a capivara
O hipopótamo esquivo das lagoas...
E tudo é médio... a natureza toda
Numa mediania inalterável...
As mesmas forças naturais que além
Rompem em cataclismas formidáveis

Criando a Geologia traço estranho
De um drama esquiliano, aqui, é calma.
Não há vulcões e os mesmos terremotos
Que subvertem cidades noutras zonas
Amortecem-se inúteis, embatendo
Na massa de granito desta terra...
As montanhas _ bem vês _ não têm altura
As maiores são serros noutras partes
Achatam-se alongando-se, alongando-se
Se o arrojo de um píncaro que enteste
Com o menor dos píncaros nos Alpes...
Nas florestas enormes não procures
O cedro colossal ou o carvalho
Ou o plátano altivo que alevanta
Às nuvens uma vida de mil anos,
Não lhe permite o surto, o afago, atroz
Terrível das lianas, das aráceas,
Que os apertam, ... e derrubam
De sorte que as florestas como os rios
Como a montanha, como a terra toda,
São grandes só por um estiramento!... Disse e eu vi pela primeira vez
O clarão ideal de uma ironia
Dando-lhe ao rosto hílar um tom mais sério.
E prosseguiu:
Aqui, o grande é o chato!
Tudo num plano horizontal é enorme
Tudo num plano vertical é mínimo
A pedra, o vegetal, e o... e o homem...
E repentinamente aquele rosto

Onde um ricto sardônico pusera
A lonha ideal desse sarcasmo ríspido
Que é a mágoa triunfante dos eleitos
Pois é a alegria trágica dos fortes,
Aquele rosto desmanchou-se todo
No desmandibulado destempero
De uma risada à-toa.

Mal a ouvi
Prendeu-me o olhar um quadro nunca visto:
Numa clareira, em frente, repontavam
Uns homens singulares... que vestidos!
Nem clâmides, nem togas, nem
Consorciando a candura dos arminhos
Com o varonil das púrpuras brilhantes.
Pretos. De preto todos no afogado
Das vestes ajustadas pelos membros...
Vinham calmos; nem gestos sacudidos
Nem vozes imperiosas... Passos lentos.

Lorena, 1896

FRAGMENTOS DE POESIA, de Euclides da Cunha

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AS CATAS, a Coelho Neto, por Euclides da Cunha

"AS CATAS"
A Coelho Neto


Que outros adorem vastas capitais
Aonde, deslumbrantes,
Da Indústria e da Ciência as triunfais
Vozes se erguem em mágico concerto;
Eu, não; eu prefiro antes
As catas desoladoras do deserto,
Cheias de sombra, de silêncio e paz...
Eu sei que à alma moderna _ alta e feliz,
E grande, e iluminada,
Não pode sofrear estes febris
Assomos curiosos que a endoidecem
De ir ver, emocionada,
Os milagres da Indústria em Gand ou Essen,
E a apoteose do século _ em Paris!
Não invejo, porém, os que se vão
Buscando, mar em fora,
De outras terras a esplêndida visão...
Fazem-me mal as multidões ruidosas
E eu procuro, nesta hora,
Cidades que se ocultam majestosas
Na tristeza solene do sertão.
Cidades ante as quais são como anãs
As Londres, extensíssimas
E as Babilônias, Bagdás pagãs;
Tão colossais, tão cheias de grandeza,
Nas construções amplíssimas,
Que as contemplando eu penso na rudeza
De uma raça já morta de titãs.
E abandonadas... no entretanto, quem
As observa, no extremo
Dos horizontes afastados, tem
O religioso espanto e o extraordinário
Êxtase supremo
De um muçulmano austero ou de um templário
Diante de Meca ou de Jerusalém.
Divisa então soberbos coliseus,
Templos de forma rara _
Amplas mesquitas, vastos mausoléus,
E góticas igrejas tão imensas
E tão frágeis que para
Compreendê-las, cremo-las suspensas
Por ignota atração vinda dos céus.
No entanto, atulmutuaram multidões
Dentro delas outrora;
E ao ritmo de esplêndidas canções
Levantou-lhes os muros triunfantes
Heróica e sonhadora,
A coorte febril dos Bandeirantes,
Nas marchas triunfais pelos sertões.
Mas passaram _ e o sol que tremeu
A seus passos, deserto,
Revolto e infinito, e como um mausoléu
Imenso que pelo sertão se estende...
Calcando-o, sentis perto,
Um deslizar sinistro de duende:
O fantasma de um povo que morreu.
Viajantes que rápidos passais
Pelas serras de Minas,
Vindos de fulgurantes capitais,
Evitai as necrópoles sagradas,
Passai longe das ruínas,
Passai longe das Catas desoladas
Cheias de sombra, de tristeza e paz...

Campanha, 1895

AS CATAS, a Coelho Neto, por Euclides da Cunha


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D. QUIXOTE, por Euclides da Cunha

D. QUIXOTE


Assim à aldeia volta o da "triste figura"
Ao tardo caminhar do Rocinante lento:
No arcaboiço dobrado _ um grande desalento,
No entrestecido olhar _ uns laivos de loucura...

Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura
Do ideal e da Fé, tudo isto num momento
A rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre os risos boçais do Bacharel e o Cura.

Mas, certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente
Contigo a sorte, ao pôr nesse teu cérebro oco
O brilho da Ilusão do espírito doente;

Porque há cousa pior: é o ir-se a pouco e pouco
Perdendo, qual perdeste, um ideal ardente
E ardentes ilusões _ e não se ficar louco!

[1890]

D. QUIXOTE, por Euclides da Cunha


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LIRISMO A DISPARADA, de Euclides da Cunha

LIRISMO A DISPARADA


Eu sou por certo um ente admirável,
A quem nenhuma penitência salva.
Não tiro o meu chapéu à Divindade...
"E dizem que perdi a Estrela-d'alva"...

E tão viciado que ainda hoje, à noite,
Um pelotão de serafins risonhos,
Em pleno 'boulevard' da Via-Láctea,
Prendeu-me porque eu estava ébrio... de sonhos!

Escândalo no céu. Os santos todos,
Perdendo as composturas consagradas,
Atiravam-me estrelas, como pedras,
E riam-se a bandeiras despregadas.

Um desacato escandaloso... e como
O Supremo Fiscal, nessa emergência,
Não conteve os seráficos garotos,
Denunciei à polícia a Providência.

Fiz bem. A rixa é velha. Há muito tempo
Que eu, o Voltaire e o Comte nem o intento
Podemos ter de passear à noite
Na grande praça azul do Firmamento.

Se o fazemos, apagam-se as lanternas
Dos céus, num pronto e momentâneo eclipse,
E vemo-nos nas trevas, entre os coices
Da besta divinal do Apocalipse!

Não vou mais lá, por isso... Mas que importa...
Por que falar nesses sucessos tristes?
Trancam-me os céus: eu tenho o teu olhar...
Nem me faz falta Deus _ pois tu existes!

LIRISMO A DISPARADA, de Euclides da Cunha



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Há nos teus olhos escuros, de Euclides da Cunha



"HÁ NOS TEUS OLHOS ESCUROS..."

Há nos teus olhos escuros
Tantas centelhas, que ao vê-las
Penso na treva e nos brilhos
Das noites cheias de estrelas...

Penso em cousas singulares,
Indagando entre delírios:
Por que é que os céus inda brilham?
Por que não se apaga Sírius?

[1888]

Há nos teus olhos escuros, de Euclides da Cunha


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