quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Monja, de Cruz e Sousa


Monja, de Cruz e Sousa. Cruz e Sousa é um dos patronos da Academia Catarinense de Letras, representando a cadeira número 15.

Monja, de Cruz e Sousa

MONJA


 Ó Lua, Lua triste, amargurada,
 Fantasma de brancuras vaporosas,
 A tua nívea luz ciliciada
 Faz murchecer e congelar as rosas.

 Nas flóridas searas ondulosas,
 Cuja folhagem brilha fosforeada,
 Passam sombras angélicas, nivosas,
 Lua, Monja da cela constelada.

 Filtros dormentes dão aos lagos quietos,
 Ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,
 Que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...

 Então, ó Monja branca dos espaços,
 Parece que abres para mim os braços,
 Fria, de joelhos, trêmula, rezando... 

Cruz e Sousa
Broquéis

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Deusa Serena


Deusa Serna, de João da Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca (Wikipedia)


Deusa Serena


DEUSA SERENA


 Espiritualizante Formosura
 Gerada nas Estrelas impassíveis,
 Deusa de formas bíblicas, flexíveis,
 Dos eflúvios da graça e da ternura.

 Açucena dos vales da Escritura,
 Da alvura das magnólias marcesáveis,
 Branca Via-Láctea das indefiníveis
 Brancuras, fonte da imortal brancura.

 Não veio, é certo, dos pauis da terra
 Tanta beleza que o teu corpo encerra, 
 Tanta luz de luar e paz saudosa...

 Vem das constelações, do Azul do Oriente,
 Para triunfar maravilhosamente
 Da beleza mortal e dolorosa! 


Cruz e Sousa
Broquéis


Poema Tulipa Real, de Cruz e Sousa


Poema Tulipa Real, de Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca (Wikipedia) 
Poema Tulipa Real, de Cruz e Sousa




TULIPA REAL


 Carne opulenta, majestosa, fina,
 Do sol gerada nos febris carinhos,
 Há músicas, há cânticos, há vinhos
 Na tua estranha boca sulferina.

 A forma delicada e alabastrina
 Do teu corpo de límpidos arminhos
 Tem a frescura virginal dos linhos
 E da neve polar e cristalina.

 Deslumbramento de luxúria e gozo,
 Vem dessa carne o travo aciduloso
 De um fruto aberto aos tropicais mormaços.

 Teu coração lembra a orgia dos triclínios...
 E os reis dormem bizarros e sanguíneos
 Na seda branca e pulcra dos teus braços. 


Cruz e Sousa
Broquéis

APARIÇÃO

Aparição de João da Cruz e Sousa. É certo que encontram-se muitas referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, à nebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos. Wikipedia) 


Aparição de João da Cruz e Sousa




APARIÇÃO


 Por uma estrada de astros e perfumes
 A Santa Virgem veio ter comigo:
 Doiravam-lhe o cabelo claros lumes
 Do sacrossanto resplendor antigo.

 Dos olhos divinais no doce abrigo
 Não tinha laivos de Paixões e ciúmes:
 Domadora do Mal e do perigo
 Da montanha da Fé galgara os cumes.

 Vestida na alva excelsa dos Profetas
 Falou na ideal resignação de Ascetas,
 Que a febre dos desejos aquebranta.

 No entanto os olhos d’Ela vacilavam,
 Pelo mistério, pela dor flutuavam,
 Vagos e tristes, apesar de Santa! 


Cruz e Sousa
Broquéis

Poema Vesperal, de Cruz e Sousa

Poema Vesperal, de Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca (Wikipedia)


Poema Vesperal, de Cruz e Sousa




VESPERAL


 Tardes de ouro para harpas dedilhadas
 Por sacras solenidades
 De catedrais em pompa, iluminadas
 Com rituais majestades.

 Tardes para quebrantos e surdinas
 E salmos virgens e cantos
 De vozes celestiais, de vozes finas
 De surdinas e quebrantos...

 Quando através de altas vidraçarias
 De estilos góticos, graves,
 O sol, no poente, abre tapeçarias,
 Resplandecendo nas naves...

 Tardes augustas, bíblicas, serenas,
 Com silêncio de ascetérios
 E aromas leves, castos, de açucenas
 Nos claros ares sidéreos...

 Tardes de campos repousados, quietos,
 Nos longes emocionantes... 
 De rebanhos saudosos, de secretos
 Desejos vagos, errantes...

 Ó Tardes de Beethoven, de sonatas,
 De um sentimento aéreo e velho...
 Tardes da antiga limpidez das pratas,
 De Epístolas do Evangelho!... 


Cruz e Sousa
Broquéis

Dança do Ventre

Dança do Ventre de Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca (Wikipedia)
Dança do Ventre de Cruz e Sousa




DANÇA DO VENTRE


 Torva, febril, torcicolosamente,
 Numa espiral de elétricos volteios,
 Na cabeça, nos olhos e nos seios
 Fluíam-lhe os venenos da serpente.

 Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
 Que convulsões, que lúbricos anseios,
 Quanta volúpia e quantos bamboleios,
 Que brusco e horrível sensualismo quente.

 O ventre, em pinchos, empinava todo
 Como reptil abjeto sobre o lodo,
 Espolinhando e retorcido em fúria.

 Era a dança macabra e multiforme
 De um verme estranho, colossal, enorme,
 Do demônio sangrento da luxúria! 


Cruz e sousa
Broquéis

FOEDERIS ARCA


Foederis Arca, de João da Cruz e Sousa. É certo que encontram-se muitas referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, à nebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos. (Wikipedia)


Foederis Arca, de João da Cruz e Sousa.





FOEDERIS ARCA


 Visão que a luz dos Astros louros trazes, 
 Papoula real tecida de neblinas
 Leves, etéreas, vaporosas, finas,
 Com aromas de lírios e lilazes.

 Brancura virgem do cristal das frases,
 Neve serena das regiões alpinas,
 Willis juncal de mãos alabastrinas,
 De fugitivas correções vivazes.

 Floresces no meu Verso como o trigo,
 O trigo de ouro dentre o sol floresce
 E és a suprema Religião que eu sigo...

 O Missal dos Missais, que resplandece,
 A igreja soberana que eu bendigo
 E onde murmuro a solitária prece!... 


Cruz e Souza
Broquéis

Tuberculosa, de Cruz e Sousa

 Tuberculosa, de Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. (Wikipedia).
Tuberculosa, de Cruz e Sousa.





TUBERCULOSA


 Alta, a frescura da magnólia fresca,
 Da cor nupcial da flor da laranjeira,
 Doces tons d'ouro de mulher tudesca
 Na veludosa e flava cabeleira.

 Raro perfil de mármores exatos,
 Os olhos de astros vivos que flamejam,
 Davam-lhe o aspecto excêntrico dos cactus
 E esse alado das pombas, quando adejam...

 Radiava nela a incomparável messe
 Da saúde brotando vigorosa,
 Como o sol que entre névoas resplandece,
 Por entre a fina pele cor-de-rosa.

 Era assim luminosa e delicada,
 Tão nobre sempre de beleza e graça
 Que recordava pompas de alvorada, 
27
 Sonoridades de cristais de taça.

 Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza
 Daquele corpo virginal e fino,
 Sacrário da mais límpida beleza,
 Perdeu a graça e o brilho diamantino.

 Tísica e branca, esbelta, frígida e alta
 E fraca e magra e transparente e esguia,
 Tem agora a feição de ave pernalta,
 De um pássaro alvo de aparência fria.

 Mãos liriais e diáfanas, de neve,
 Rosto onde um sonho aéreo e polar flutua,
 Ela apresenta a fluidez, a leve
 Ondulação da vaporosa lua.

 Entre vidraças, como numa estufa,
 No inverno glacial de vento e chuva
 Que sobre as telhas tamborila e rufa,
 Vejo-a, talhada em nitidez de luva...

 E faz lembrar uma esquisita planta
 De profundos pomares fabulosos
 Ou a angélica imagem de uma Santa
 Dentre a auréola de nimbos religiosos.

 A enfermidade vai-lhe, palmo a palmo,
 Ganhando o corpo, como num terreno...
 E com prelúdios místicos de salmo
 Cai-lhe a vida em crepúsculo sereno.

 Jamais há de ela ter a cor saudável
 Para que a carne do seu corpo goze,
 Que o que tinha esse corpo de inefável
 Cristalizou-se na tuberculose.

 Foge ao mundo fatal, arbusto débil,
 Monja magoada dos estranhos ritos,
 Ó trêmula harpa soluçante, flébil,
 Ó soluçante, flébil eucaliptos..


Cruz e Sousa
Broquéis

Flor do Mar, de Cruz e Sousa

Flor do Mar, de Cruz e Sousa.  Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, foi um dos precursores do simbolismo no Brasil. Segundo Antonio Candido, Cruz e Sousa foi o "único escritor eminente de pura raça negra na literatura brasileira, onde são numerosos os mestiços" (Wikipedia
Flor do Mar, de Cruz e Sousa

FLOR DO MAR


 És da origem do mar, vens do secreto,
 Do estranho mar espumaroso e frio
 Que põe rede de sonhos ao navio
 E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

 Possuis do mar o deslumbrante afeto,
 As dormências nervosas e o sombrio
 E torvo aspecto aterrador, bravio
 Das ondas no atro e proceloso aspecto.

 Num fundo ideal de púrpuras e rosas
 Surges das águas mucilaginosas
 Como a lua entre a névoa dos espaços...

 Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
 Auroras, virgens músicas marinhas,
 Acres aromas de algas e sargaços... 


Cruz e Sousa
Broquéis


MUSA CONSOLATRIX, de Machado de Assis

MUSA CONSOLATRIX, de Machado de Assis. Foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil (Wikipedia
MUSA CONSOLATRIX, de Machado de Assis


MUSA CONSOLATRIX

(1864)

Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
 Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

 Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
 Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
 Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
 À enchente das angústias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.

 Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
 Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
 Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e terá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro! 


Machado de Assis
Crisálidas

Regina Coeli, de Cruz e Sousa

Regina Coeli, de Cruz e Sousa.  Em 1881, dirigiu o jornal Tribuna Popular, no qual combateu a escravidão e o preconceito racial. (Wikipedia)
Regina Coeli, de Cruz e Sousa



 REGINA COELI


 Ó Virgem branca, Estrela dos altares,
 Ó Rosa pulcra dos Rosais polares!

 Branca, do alvor das âmbulas sagradas
 E das níveas camélias regeladas.

 Das brancuras de seda sem desmaios
 E da lua de linho em nimbo e raios.

 Regina Coeli das sidéreas flores,
 Hóstia da Extrema-Unção de tantas dores.

 Ave de prata e azul, Ave dos astros...
 Santelmo aceso, a cintilar nos mastros...

11
 Gôndola etérea de onde o Sonho emerge...
 Água Lustral que o meu Pecado asperge.

 Bandolim do luar, Campo de giesta,
 Igreja matinal gorjeando em festa.

 Aroma, Cor e Som das Ladainhas
 De Maio e Vinha verde dentre as vinhas.

 Dá-me, através de cânticos, de rezas,
 O Bem, que almas acerbas torna ilesas.

 O Vinho d’ouro, ideal, que purifica
 Das seivas juvenis a força rica.

 Ah! faz surgir, que brote e que floresça
 A Vinha d’ouro e o vinho resplandeça.

 Pela Graça imortal dos teus Reinados
 Que a Vinha os frutos desabroche iriados.

 Que frutos, flores, essa Vinha brote
 Do céu sob o estrelado chamalote.

 Que a luxúria poreje de áureos cachos
 E eu um vinho de sol beba aos riachos.

 Virgem, Regina, Eucaristia, Coeli,
 Vinho é o clarão que ao teu Amor impele.

 Que desabrocha ensangüentadas rosas
 Dentro das naturezas luminosas.

 Ó Regina do Mar! Coeli! Regina!
 Ó Lâmpada das naves do Infinito!
 Todo o Mistério azul desta Surdina
 Vem d’estranhos Missais de um novo Rito!... 


Cruz e Sousa
Broquéis

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Deixa-me! Fagundes Varella.

Deixa-me! Fagundes Varella. Foi a transição entre a segunda e a terceira geração romântica. 


Deixa-me! Fagundes Varella.




DEIXA-ME!


Quando cansado da vigília insana
Declino a fronte num dormir profundo,
Por que teu nome vem ferir-me o ouvido,
Lembrar-me o tempo que passei no mundo?

Por que teu vulto se levanta airoso,
Tremente em ânsias de volúpia infinda?
E as formas nuas, e ofegante o seio,
No meu retiro vens tentar-me ainda?

Por que me falas de venturas longas,
Por que me apontas um porvir de amores?
E o lume pedes à fogueira extinta,
Doces perfumes a polutas flores?

Não basta ainda essa existência escura,
Página treda que a teus pés compus?
Nem essas fundas, perenais angústias,
Dias sem crenças e serões sem luz?

Não basta o quadro de meus verdes anos
Manchado e roto, abandonado ao pó?
Nem este exílio, do rumor no centro,
Onde pranteio desprezado e só?

Ah! não me lembres do passado as cenas,
Nem essa jura desprendida a esmo!
Guardaste a tua? a quantos outros, dize,
A quantos outros não fizeste o mesmo? 

A quantos outros, inda os lábios quentes
De ardentes beijos que eu te dera então,
Não apertaste no vazio seio
Entre promessas de eternal paixão?

Oh! fui um doido que segui teus passos,
Que dei-te em versos de beleza a palma;
Mas tudo foi-se, e esse passado negro
Por que sem pena me despertas n’alma?

Deixa-me agora repousar tranqüilo,
Deixa-me agora dormitar em paz,
E com teus risos de infernal encanto
Em meu retiro não me tentes mais! 


Fagundes Varella

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

As Selvas, de Fagundes Varella.

As Selvas, de Fagundes Varella. Poeta romântico e boêmio inveterado, Fagundes Varella foi um dos maiores expoentes da poesia brasileira, em seu tempo.


As Selvas, de Fagundes Varella.



AS SELVAS


Selvas do Novo Mundo, amplos zimbórios,
Mares de sombra e ondas de verdura,
Povo de Atlantes soberano e mudo
Em cujos mantos o tufão murmura.

Salve! minh’alma vos procura embalde,
Embalde triste vos estendo os braços...
Cercam-me o corpo rebatidos muros,
Prendem-me as plantas enredados laços!...

Pátria da liberdade! antros profundos!
Vastos palácios! eternais castelos!
Mandai-me os gênios das sombrias grutas
De meus grilhões espedaçar os elos!...

Ah! que eu não possa me esquivar dos homens,
Matar a febre que meu ser consome,
E entre alegrias me arrojar cantando
Nas secas folhas do sertão sem nome!

Ah! que eu não possa desprender aos ermos
O fogo ardente que meu crânio encerra,
Gastar os dias entre o espaço e Deus
Nas matas virgens da colúmbia terra!

Eu não detesto nem maldigo a vida,
Nem do despeito me remorde a chaga,
Mas ah! sou pobre, pequenino e débil
E sobre a estrada o viajor me esmaga!

Que faço triste no rumor das praças?
Que busco pasmo nos salões dourados?
Verme do lodo me desprezam todos,
O pobre e os grandes de esplendor cercados!

Fere-me os olhos o clarão do mundo,
Rasgam-me o seio prematuras dores,
E à mágoa insana que me enluta as noites,
Declino à campa na estação das flores.

E há tanto encanto nas florestas virgens,
Tanta beleza do sertão na sombra,
Tanta harmonia no correr do rio,
Tanta delícia na campestre alfombra...

Que inda pudera reviver de novo,
E entre venturas flutuar minh’alma,
Fanada planta que mendiga apenas
A noite, o orvalho, a viração e a calma! 

Fagundes Varella

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Poema STELLA, de Machado de Assis

Poema STELLA, de Machado de Assis. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário.

Poema STELLA, de Machado de Assis

STELLA

 (1862)

 Ouvre ton aile et pars...
 Th. Gauthier

Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o último pranto
Por todo o vasto espaço.

Tíbio clarão já cora
A tela do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.

À muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.

Uma por uma, vão
As pálidas estrelas,
E vão, e vão com elas
Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o úmido seio?

Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a névoa fria,
Virá do roxo oriente.

Dos íntimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera
Em lágrimas a pares,

Do amor silencioso,
Místico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do etéreo gozo,

De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.

A virgem da manhã
Já todo o céu domina...
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã. 

Machado de Assis
Crisálidas

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Jovem Cativa, de Machado de Assis.

A Jovem Cativa, de Machado de Assis. Foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil.


A JOVEM CATIVA

 (André Chenier – 1861)

— “Respeita a foice a espiga que desponta;
Sem receio ao lagar o tenro pâmpano
Bebe no estio as lágrimas da aurora;
Jovem e bela também sou; turvada
A hora presente de infortúnio e tédio
Seja embora: morrer não quero ainda!

De olhos secos o estóico abrace a morte;
Eu choro e espero; ao vendaval que ruge
Curvo e levanto a tímida cabeça.
Se há dias maus, também os há felizes!
Que mel não deixa um travo de desgosto?
Que mar não incha a um temporal desfeito?

Tu, fecunda ilusão, vives comigo.
Pesa em vão sobre mim cárcere escuro,
Eu tenho, eu tenho as asas da esperança:
Escapa da prisão do algoz humano,
Nas campinas do céu, mais venturosa,
Mais viva canta e rompe a filomela.

Deve acaso morrer ? Tranqüila durmo,
Tranqüila velo; e a fera do remorso
Não me perturba na vigília ou sono;
Terno afago me ri nos olhos todos
Quando apareço, e as frontes abatidas
Quase reanima um desusado júbilo.

Desta bela jornada é longe o termo.
Mal começo; e dos olmos do caminho
Passei apenas os primeiros olmos.
No festim em começo da existência
Um só instante os lábios meus tocaram
A taça em minhas mãos ainda cheia.

Na primavera estou, quero a colheita
Ver ainda, e bem como o rei dos astros,
De sazão em sazão findar meu ano.
Viçosa, sobre a haste, honra das flores,
Hei visto apenas da manhã serena
Romper a luz, — quero acabar meu dia.

Morte, tu podes esperar; afasta-te!
Vai consolar os que a vergonha, o medo,
O desespero pálido devora.
Pales inda me guarda um verde abrigo,
Ósculos o amor, as musas harmonias;
Afasta-te, morrer não quero ainda!” –

Assim, triste e cativa, a minha lira
Despertou escutando a voz magoada
De uma jovem cativa; e sacudindo
O peso de meus dias langorosos,
Acomodei à branda lei do verso 
Os acentos da linda e ingênua boca.

Sócios meus de meu cárcere, estes cantos
Farão a quem os ler buscar solícito
Quem a cativa foi; ria-lhe a graça
Na ingênua fronte, nas palavras meigas;
De um termo à vida, há de tremer, como ela,
Quem aos seus dias for casar seus dias
A Jovem Cativa, de Machado de Assis.



2
 Foi com alguma hesitação que eu fiz inserir no volume estes versos. Já bastava o arrojo de traduzir a maviosa elegia de Chenier. Poderia eu conservar a grave simplicidade do original? A animação de um amigo decidiu-me a não imolar o trabalho já feito; aí fica a poesia; se me sair mal, corre por conta do amigo anônimo. 



Machado de Assis
Crisálidas


terça-feira, 17 de outubro de 2017

No Limiar, de Machado de Assis.

No Limiar, de Machado de Assis. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário (Wikipedia)
No Limiar, de Machado de Assis.



NO LIMIAR

 (1863)

Caía a tarde. Do infeliz à porta,
Onde mofino arbusto aparecia
De tronco seco e de folhagem morta,

Ele que entrava e Ela que saía
Um instante pararam; um instante
Ela escutou o que Ele lhe dizia;

— “Que fizeste? Teu gesto insinuante
Que lhe ensinou ? Que fé lhe entrou no peito
Ao mago som da tua voz amante?*

“Quando lhe ia o temporal desfeito
De que raio de sol o mantiveste?
E de que flores lhe forraste o leito?”—

Ela, volvendo o olhar brando e celeste,
Disse: — “Varre-lhe a alma desolada,
Que nem um ramo, uma só flor lhe reste!

“Torna-lhe, em vez da paz abençoada,
Uma vida de dor e de miséria,
Uma morte contínua e angustiada.

“Essa é a tua missão torva e funérea.
Eu procurei no lar do infortunado
Dos meus olhos verter-lhe a luz etérea.

“Busquei fazer-lhe um leito semeado
De rosas festivais, onde tivesse
Um sono sem tortura nem cuidado.

“E porque o céu que mais se lhe enegrece,
Tivesse algum reflexo de ventura
Onde o cansado olhar espairecesse,

“Uma réstia de luz suave e pura
Fiz-lhe descer à erma fantasia,
De mel ungi-lhe o cálix** da amargura.

“Foi tudo vão, -- foi tudo vã porfia,
A ventura não veio. A tua hora
Chega na hora que termina o dia.*

“Entra” — E o virgíneo rosto que descora
Nas mãos esconde. Nuvens que correram
Cobrem o céu que o sol já mal colora.

Ambos, com um olhar se compreenderam.
Um penetrou no lar com passo ufano;
Outra tomou por um desvio. Eram:
Ela a Esperança, Ele o Desengano. 


Machado de Assis
Crisálidas


*
 No original, as aspas não fecham.
** Foi mantida a forma arcaica em razão da métrica.
*
 No original, as aspas não fecham. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sinhá, de Machado de Assis.

Sinhá, de Machado de Assis. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões (Wikipedia)
Sinhá, de Machado de Assis.



SINHÁ

 (Num álbum – 1862)
O teu nome é como o óleo derramado.
 SALOMÃO — Cântico dos Cânticos

Nem o perfume que espira
A flor, pela tarde amena,
Nem a nota que suspira
Canto de saudade e pena
Nas brandas cordas da lira;
Nem o murmúrio da veia
Que abriu sulco pelo chão
Entre margens de alva areia,
Onde se mira e recreia
Rosa fechada em botão;

Nem o arrulho enternecido
Das pombas, nem do arvoredo
Esse amoroso arruído
Quando escuta algum segredo
Pela brisa repetido;
Nem esta saudade pura
Do canto do sabiá
Escondido na espessura,
Nada respira doçura
Como o teu nome, Sinhá! 


Machado de Assis
Crisálidas
Tecnologia do Blogger.