terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Tuberculosa, de Cruz e Sousa

 Tuberculosa, de Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. (Wikipedia).
Tuberculosa, de Cruz e Sousa.




TUBERCULOSA


 Alta, a frescura da magnólia fresca,
 Da cor nupcial da flor da laranjeira,
 Doces tons d'ouro de mulher tudesca
 Na veludosa e flava cabeleira.

 Raro perfil de mármores exatos,
 Os olhos de astros vivos que flamejam,
 Davam-lhe o aspecto excêntrico dos cactus
 E esse alado das pombas, quando adejam...

 Radiava nela a incomparável messe
 Da saúde brotando vigorosa,
 Como o sol que entre névoas resplandece,
 Por entre a fina pele cor-de-rosa.

 Era assim luminosa e delicada,
 Tão nobre sempre de beleza e graça
 Que recordava pompas de alvorada, 
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 Sonoridades de cristais de taça.

 Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza
 Daquele corpo virginal e fino,
 Sacrário da mais límpida beleza,
 Perdeu a graça e o brilho diamantino.

 Tísica e branca, esbelta, frígida e alta
 E fraca e magra e transparente e esguia,
 Tem agora a feição de ave pernalta,
 De um pássaro alvo de aparência fria.

 Mãos liriais e diáfanas, de neve,
 Rosto onde um sonho aéreo e polar flutua,
 Ela apresenta a fluidez, a leve
 Ondulação da vaporosa lua.

 Entre vidraças, como numa estufa,
 No inverno glacial de vento e chuva
 Que sobre as telhas tamborila e rufa,
 Vejo-a, talhada em nitidez de luva...

 E faz lembrar uma esquisita planta
 De profundos pomares fabulosos
 Ou a angélica imagem de uma Santa
 Dentre a auréola de nimbos religiosos.

 A enfermidade vai-lhe, palmo a palmo,
 Ganhando o corpo, como num terreno...
 E com prelúdios místicos de salmo
 Cai-lhe a vida em crepúsculo sereno.

 Jamais há de ela ter a cor saudável
 Para que a carne do seu corpo goze,
 Que o que tinha esse corpo de inefável
 Cristalizou-se na tuberculose.

 Foge ao mundo fatal, arbusto débil,
 Monja magoada dos estranhos ritos,
 Ó trêmula harpa soluçante, flébil,
 Ó soluçante, flébil eucaliptos..

Cruz e Sousa
Broquéis

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