segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Epicédio: A Morte de Salício, de Cláudio Manuel da Costa

Cláudio Manuel da Costa (Vila do Ribeirão do Carmo, Minas Gerais, 5 de junho de 1729 — Vila Rica, Minas Gerais, 4 de julho de 1789) foi um advogado, minerador e poeta português do Brasil Colônia. (Wikipedia)




EPICÉDIO

A MORTE DE SALÍCIO


EPICÉDIO II

Espírito imortal, tu que rasgando
Essa esfera de luzes, vais pisando
Do fresco Elísio a região bendita,
Se nesses campos, onde a glória habita,
Centro do gosto, do prazer estância,
Entrada se permite à mortal ânsia
De uma dor, de um suspiro descontente,
Se lá relíquia alguma se consente
Desta cansada, humana desventura,
Não te ofendas, que a vítima tão pura,
Que em meus ternos soluços te ofereço,
Busque seguir-te, por lograr o preço
Daquela fé, que há muito consagrada
Nas aras da amizade foi jurada.

Bem sabes, que o suavíssimo perfume,
Que arder pode do amor no casto lume,
Os suores não são deste terreno,
Que odorífero sempre, e sempre ameno,
Em coalhadas porções Chipre desata:
Mais que os tesouros, que feliz recata
A arábica região, amor estima
Os incensos, que a fé, que a dor anima,
Abrasados no fogo da lembrança.
Esta pois a discreta segurança,
Com que chega meu peito saudoso,
A acompanhar teu passo venturoso,

Oh sempre suspirado, sempre belo,
Espírito feliz: a meu desvelo
Não negues, eu te rogo, que constante
Viva a teu lado sombra vigilante.

Inda que estejas de esplendor cercada,
Alma feliz, na lúcida morada,
Que na pompa dos raios luminosa
Pises aquela esfera venturosa,
Que a teu merecimento o Céu destina;
Nada impede, que a chama peregrina
De uma saudade aflita, e descontente,
Te assista acompanhando juntamente.
Antes razão será, que debuxada
Em meu tormento aquela flor prostrada,
Sol em teus resplendores te eternizes,
E Clície em minha mágoa me divises;
Entre raios crescendo, entre lamentos,
Em mim a dor, em ti os luzimentos.

Se porém a infestar da Elísia esfera
A contínua, brilhante primavera
Chegar só pode o lastimoso rosto
Deste meu triste, fúnebre desgosto,
Eu desisto do empenho, em que deliro;
E as asas encurtando a meu suspiro,
Já não consinto, que seu vôo ardente
A acompanhar-te suba diligente:
Antes no mesmo horror, na sombra escura
Da minha inconsolável desventura
Eu quero lastimar meu fado tanto,
Que sufocado em urnas de meu pranto,
A tão funesto, líquido dispêndio,
A chama apague deste ardente incêndio.

Indigno sacrifício de uma pena,
Que chega a perturbar a paz serena
De umas almas, que em campos de alegria
Gozam perpétua luz, perpétuo dia;
Que adorando a concórdia, desconhecem
Os sustos, que da inveja os braços tecem;
Que ignoram o rigor do frio inverno;
E que em brando concerto, em jogo alterno
Gozam toda a suavíssima carreira
De uma sorte risonha, e lisonjeira.

Ali, entre os favônios mais suaves,
A consonância ofenderei das aves,
Que arrebatando alegres os ouvidos,
Discorrem entre os círculos luzidos
De toda a vegetante, amena estância.
Ali pois as memórias de minha ânsia
Não entrarão, Salício: que não quero
Ser contigo tão bárbaro, e tão fero,
Que um bem, em cuja posse estás ditoso,
Triste magoe, infeste lastimoso.

Cá vivera comigo a minha pena,
Penhor inextinguível, que me ordena
A sempre viva, e imortal lembrança.
Ela me está propondo na vingança
De meu fado inflexível, ó Salício,
Aquele infausto, trágico exercício,
Que os humanos progressos acompanha.
Quem cuidara, que fosse tão estranha,
Tão pérfida, tão ímpia a força sua,
Que maltratar pudesse a idade tua,
Adornada não só daquele raio,
Que anima a flor, que se produz em maio;
Mas inda de frutíferos abonos,
Que antecipa a cultura dos outonos!

Cinco lustros o Sol tinha dourado
(Breves lustros enfim, Salício amado),
Quando o fio dos anos encolhendo,
Foi Átropos a teia desfazendo:
Um golpe, e outro golpe preparava:
Para empregá-lo a força lhe faltava;
Que mil vezes a mão, ou de respeito,
De mágoa, ou de temor, não pôs o efeito.
Desatou finalmente o peregrino

Fio, que já tecera. Ah se ao destino
Pudera embaraçar nossa piedade!
Não te glories, trágica deidade,
De um triunfo, que levas tão precioso:
Desar é de teu braço indecoroso;
Que inda que a fúria tua o tem roubado,
A nossa dor o guarda restaurado.

Vive entre nós ainda na memória,
A que ele nos deixou, eterna glória;
Dispêndios preciosos de um engenho,
Ou já da natureza desempenho,
Ou para a nossa dor só concedido.
Salício, o pastor nosso, tão querido,
Prodígio foi no raro do talento,
Sobre todo o mortal merecimento;
E prodígio também com ele agora
Se faz a mágoa, que o lastima e chora.

A lutuosa vítima do pranto
Melhor, que o imarcescível amaranto,
Te cerca, ó alma grande, a urna triste;
O nosso sentimento aqui te assiste,
Em nênias entoando magoadas
Hinos saudosos, e canções pesadas.

Quiséramos na campa, que te cobre,
Bem que o tormento ainda mais se dobre,
Gravar um epitáfio, que declare,
Quem o túmulo esconde; e bem que apare
Qualquer engenho a pena, em nada atina.
Vive outra vez: das cinzas da ruína
Ressuscita, ó Salício; dita; escreve;
Seja o epitáfio teu: a cifra breve
Mostrará no discreto, e no polido,
Que é Salício, o que aqui vive escondido


Cláudio Manuel da Costa

Epicédio: A Morte de Salício, de Cláudio Manuel da Costa


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O Exilado, de Fagundes Varella.

O Exilado, de Fagundes Varella. Poeta romântico e boêmio inveterado, Fagundes Varella foi um dos maiores expoentes da poesia brasileira, em seu tempo.


O EXILADO


O exilado está só por toda a parte!

Passei tristonho dos salões no meio,
Atravessei as turbulentas praças
Curvado ao peso de uma sina escura;
As turbas contemplaram-me sorrindo,
Mas ninguém divisou a dor sem termos
Que as fibras de meu peito espedaçava.
O exilado está só por toda a parte!

Quando, à tardinha, dos floridos vales
Eu via o fumo se elevar tardio 
Por entre o colmo de tranqüilo albergue,
Murmurava a chorar: - Feliz aquele
Que à luz amiga do fogão doméstico,
Rodeado dos seus, à noite, senta-se.
O exilado está só por toda a parte!

Onde vão estes flocos de neblina
Que o euro arrasta nas geladas asas?
Onde vão essas tribos forasteiras
Que à tempestade se esquivar procuram?
Ah! que me importa?... também eu doidejo,
E onde irei, Deus o sabe, Deus somente.
O exilado está só por toda a parte!

Desta campina as árvores são belas,
São belas estas flores que se vergam
Das auras estivais ao débil sopro;
Mas nem a sombra que no chão se alonga,
Nem o perfume que o ambiente inunda
São dessa gleba divinal que adoro.
O exilado está só por toda a parte!

Mole e lascivo no tapiz da selva
Serpeia o arroio, e o deslizar queixoso
Peja de amor as solidões dormentes;
Mas nunca o rosto refletiu-me um dia,
Nem foi seu burburinho enlanguescido
Que embalou minha infância a descuidosa.
O exilado está só por toda a parte!

- Por que chorais? me perguntou o mundo;
Contai-nos vossa dor, talvez possamos
Saná-la às gotas de elixir suave;
Mas, quando eu suspendi a lousa escura
Que o túmulo cobria-me da vida,
Riram-se pasmos sem sondar-lhe o fundo.
O exilado está só por toda a parte!

Vi o ancião da prole rodeado
Sorrir-se calmo e bendizer a Deus,
Vi junto à porta da nativa choça
As crianças beijarem-se abraçadas;
Mas de filho ou de irmão o santo nome
Ninguém me deu, e eu fui passando triste.
O exilado está só por toda a parte!

Quando verei essas montanhas altas
Que o sol dourava nas manhãs de agosto?
Quando, junto à lareira, as folhas lívidas
Deslembrarei de meu sombrio drama?
Doida esperança! as estações sucedem-se 
E sem um gozo vou descendo à campa.
O exilado está só por toda a parte! 

Brandas aragens, que roçais fagueiras
Das maravilhas nas cheirosas frontes,
Aves sem pátria, que cortais os ares,
Irmãs na sorte do infeliz romeiro,
Ah! levai um suspiro à pátria amada,
Último alento de cansado peito.
O exilado está só por toda a parte!

Quando nas folhas de lustrosos plátanos
Novos luares descansarem gratos,
Já sobre a estrada de meus pés os traços
O pegureiro não verá, que passa!
Mísero! ao leito de final descanso
Ninguém meu sono velará chorando.
O exilado está só por toda a parte! 

Fagundes Varella


O Exilado, de Fagundes Varella

Poema Eterna Mágoa, de Augusto dos Anjos.

Poema Eterna Mágoa, de Augusto dos Anjos.



ETERNA MÁGOA
 Augusto dos Anjos


O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda

Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme


É essa mágoa que o acompanha ainda! 

Augusto dos Anjos


TRISTEZA, de Fagundes Varella

Poema TRISTEZA, de Fagundes Varella. Poeta romântico e boêmio inveterado, Fagundes Varella foi um dos maiores expoentes da poesia brasileira, em seu tempo.
Poema TRISTEZA, de Fagundes Varella.


TRISTEZA


Eu amo a noite com seu manto escuro
De tristes goivos coroada a fronte
Amo a neblina que pairando ondeia
Sobre o fastígio de elevado monte.

Amo nas plantas, que na tumba crescem,
De errante brisa o funeral cicio:
Porque minh’alma, como a sombra, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio.

Amo a desoras sob um céu de chumbo,
No cemitério de sombria serra,
O fogo-fátuo que a tremer doideja
Das sepulturas na revolta terra.
Amo ao silêncio do ervaçal partido
De ave noturna o funerário pio,
Porque minh’alma, como a noite, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio.

Amo do templo, nas soberbas naves,
De tristes salmos o troar profundo;
Amo a torrente que na rocha espuma
E vai do abismo repousar no fundo.

Amo a tormenta, o perpassar dos ventos,
A voz da morte no fatal parcel,
Porque minh’alma só traduz tristeza,
Porque meu seio se abrevou de fel.

Amo o corisco que deixando a nuvem
O cedro parte da montanha, erguido,
Amo do sino, que por morto soa,
O triste dobre na amplidão perdido.

Amo na vida de miséria e lodo,
Das desventuras o maldito seio,
Porque minh’alma se manchou de escárnios,
Porque meu seio se cobriu de gelo.

Amo o furor do vendaval que ruge,
Das asas negras sacudindo o estrago;
Amo as metralhas, o bulcão de fumo,
De corvo as tribos em sangrento lago.

Amo do nauta o doloroso grito
Em frágil prancha sobre mar de horrores,
Porque meu seio se tornou de pedra,
Porque minha’alma descorou de dores.

O céu de anil, a viração fagueira,
O lago azul que os passarinhos beijam,
A pobre choça do pastor no vale,
Chorosas flores que ao sertão vicejam,

A paz, o amor, a quietação e o riso
A meus olhares não têm mais encanto,
Porque minh’alma se despiu de crenças,
E do sarcasmo se embuçou no manto
Fagundes Varella
Poemas


ELEGIA, de Fagundes Varella

ELEGIA, de Fagundes Varella. Fagundes Varella (São João Marcos, 17 de agosto de 1841 — Niterói, 18 de fevereiro de 1875) foi um poeta romantista brasileiro da 2ª Geração, patrono na Academia Brasileira de Letras. 


ELEGIA, de Fagundes Varella

ELEGIA


A noite era bela - dormente no espaço
A lua soltava seus pálidos lumes;
Das flores fugindo, corria lasciva
A brisa embebida de moles perfumes.

Do ermo os insetos zumbiam na relva,
As plantas tremiam de orvalho banhadas,
E aos bandos voavam ligeiras falenas
Nas folhas batendo com as asas douradas.

O túrbido manto das névoas errantes
Pairava indolente no topo da serra;
E aos astros - e às nuvens perfumes - sussurros,
Suspiros e cantos partiam da terra.

Nós éramos jovens - ardentes e sós,
Ao lado um do outro no vasto salão;
E as brisas e a noite nos vinham no ouvido
Cantar os mistérios de infinda paixão!

Nós éramos jovens - e a luz de seus olhos
Brilhava incendida de eternos desejos, 
E a sombra indiscreta do níveo corpinho
Sulcava-lhe os seios em brandos arquejos!

Nós éramos jovens - e as balsas floridas
O espaço inundavam - de quentes perfumes,
E o vento chorava nas tílias do parque,
E a lua soltava seus tépidos lumes!...

Ah! mísero aquele que as sendas do mundo
Trilhou sem o aroma de pálida flor,
E à tumba declina, na aurora dos sonhos,
O lábio inda virgem dos beijos de amor!

Não são dos invernos as frias geadas,
Nem longas jornadas que os anos apontam.
O tempo descora nos risos e prantos,
E os dias do homem por gozos se contam.

Assim nessa noite de mudas venturas,
De louros eternos minh’alma enastrei;
Que importa-me agora martírios e dores,
Se outrora dos sonhos a taça esgotei?

Ah! lembra-me ainda! - nem um candelabro
Lançava ao recinto seu brando clarão,
Apenas os raios da pálida lua
Transpondo as janelas batiam no chão. 

Vestida de branco - nas cismas perdida,
Seu mórbido rosto pousava em meu seio,
E o aroma celeste das negras madeixas
Minh’alma inundava de férvido anseio.

Nem uma palavra seus lábios queridos
Nos doces espasmos diziam-me então:
Que valem palavras, quando ouve-se o peito
E as vidas se fundem no ardor da paixão?

Oh! céus! eram mundos... ai! mais do que mundos
Que a mente invadiam de etéreo fulgor!
Poemas divinos - por Deus inspirados,
E a furto contados em beijos de amor!

No fim do seu giro, da noite a princesa
Deixou-nos unidos em brando sonhar;
Correram as horas - e a luz da alvorada
Em juras infindas nos veio encontrar!

Não são dos invernos as frias geadas,
Nem longas jornadas que os anos apontam...
O tempo descora nos risos e prantos, 
E os dias do homem por dores se contam!

Ligeira... essa noite de infindas venturas
Somente em minh’alma lembranças deixou...
Três meses passaram, e o sino do templo
À reza dos mortos os homens chamou!

Três meses passaram - e um lívido corpo
Jazia dos círios à luz funeral,
E, à sombra dos mirtos, o rude coveiro
Abria cantando seu leito afinal!...

Nós éramos jovens, e a senda terrestre
Trilhávamos juntos, de amor a sorrir,
E as flores e os ventos nos vinham no ouvido
Contar os arcanos de um longo porvir!

Nós éramos jovens, e as vidas e os seios,
O afeto prendera num cândido nó!
Foi ela a primeira que o laço quebrando
Caiu soluçando das campas no pó!

Não são dos invernos as frias geadas,
Nem longas jornadas que os anos apontam,
O tempo descora nos risos e prantos,
E os dias do homem por dores se contam!

- 1861. 

Fagundes Varella

Leia também do autor: Napoleão - Fagundes Varella

Ilusão, de Fagundes Varella.

Ilusão, de Fagundes Varella. Poeta romântico e boêmio inveterado, Fagundes Varella foi um dos maiores expoentes da poesia brasileira, em seu tempo. 

Ilusão, de Fagundes Varella.



ILUSÃO


Sinistro como um fúnebre segredo
Passa o vento do Norte murmurando
 Nos densos pinheirais;
A noite é fria e triste; solitário
Atravesso a cavalo a selva escura
 Entre sombras fatais.

À medida que avanço, os pensamentos
Borbulham-me no cérebro, ferventes,
 Como as ondas do mar,
E me arrastam consigo, alucinado,
À casa da formosa criatura
 De meu doido cismar. 

Latem os cães; as portas se franqueiam
Rangendo sobre os quícios; os criados
 Acordem pressurosos;
Subo ligeiro a longa escadaria,
Fazendo retinir minhas esporas
 Sobre os degraus lustrosos.

No seu vasto salão iluminado,
Suavemente repousando o seio
 Entre sedas e flores,
Toda de branco, engrinaldada a fronte,
Ela me espera, a linda soberana
 De meus santos amores.

Corro a seus braços trêmulo, incendido
De febre e de paixão... A noite é negra,
 Ruge o vento no mato;
Os pinheiros se inclinam, murmurando:
- Onde vai este pobre cavaleiro
 Com seu sonho insensato?.


Fagundes Varella

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O Canto do Guerreiro.

O Canto do Guerreiro.  foi um poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo brasileiro. Um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como "indianismo (Wikipedia)


O Canto do Guerreiro.


O Canto do Guerreiro.




O Canto do Guerreiro

I
Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estimem a vida
Sem guerra e lidar.
- Ouvi-me, Guerreiros.
- Ouvi meu cantar.

II
Valente na guerra
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
- Guerreiros, ouvi-me;
- Quem há, como eu sou?

III
Quem guia nos ares
A frecha imprumada,
Ferindo uma presa,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
- Guerreiros, ouvi-me,
- Ouvi meu cantar.

IV
Quem tantos imigos
Em guerras preou?
Quem canta seus feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
- Guerreiros, ouvi-me:
- Quem há, como eu sou?

V
Na caça ou na lide,
Quem há que me afronte?!
A onça raivosa
Meus passos conhece, 
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céu.
- Quem há mais valente,
- Mais destro do que eu?

VI
Se as matas estrujo
Co os sons do Boré,
Mil arcos se encurvam,
Mil setas lá voam,
Mil gritos reboam,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
- Quem é mais valente,
- Mais forte quem é?

VII
Lá vão pelas matas;
Não fazem ruído:
O vento gemendo
E as malas tremendo
E o triste carpido
Duma ave a cantar,
São eles - guerreiros,
Que faço avançar.

VIII
E o Piaga se ruge
No seu Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frechados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viveram,
Mil homens são lá.

IX
E então se de novo
Eu toco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal eles se escoam
Aos sons do Boré.
- Guerreiros, dizei-me,
- Tão forte quem é? 


Gonçalves Dias 
Primeiros Cantos

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Poema Noiva da Agonia, de Cruz e Sousa


Poema Noiva da Agonia, de Cruz e Sousa. João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro, 24 de novembro de 1861 — Curral Novo, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro. Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.
Poema Noiva da Agonia, de Cruz e Sousa.



NOIVA DA AGONIA


 Trêmula e só, de um túmulo surgindo,
 Aparição dos ermos desolados,
 Trazes na face os frios tons magoados
 De quem anda por túmulos dormindo...

 A alta cabeça no esplendor, cingindo
 Cabelos de reflexos irisados,
 Por entre auréolas de clarões prateados,
 Lembras o aspecto de um luar diluindo...

 Não és, no entanto, a torva Morte horrenda,
 Atra, sinistra, gélida, tremenda,
 Que as avalanches da Ilusão governa...

 Mas ah! és da Agonia a Noiva triste
 Que os longos braços lívidos abriste
 Para abraçar-me para a Vida eterna! 


Cruz e Sousa
Broquéis

Múmia, de Cruz e Sousa


Múmia, de Cruz e Sousa. João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro, 24 de novembro de 1861 — Curral Novo, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro. Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, foi um dos precursores do simbolismo no Brasil. (Wikipedia)

Múmia, de Cruz e Sousa

MÚMIA


 Múmia de sangue e lama e terra e treva,
 Podridão feita deusa de granito,
 Que surges dos mistérios do Infinito
 Amamentada na lascívia de Eva.

 Tua boca voraz se farta e ceva
 Na carne e espalhas o terror maldito,
 O grito humano, o doloroso grito
 Que um vento estranho para os limbos leva.

 Báratros, criptas, dédalos atrozes
 Escancaram-se aos tétricos, ferozes
 Uivos tremendos com luxúria e cio...

 Ris a punhais de frígidos sarcasmos
 E deve dar congélidos espasmos
 O teu beijo de pedra horrendo e frio!... 

Cruz e Sousa
Broquéis


terça-feira, 2 de outubro de 2018

Uma Noite no Cairo

Poema Uma Noite no Cairo, de Augusto dos Anjos. Segundo o site Wikipedia o autor é conhecido como um dos poetas mais críticos do seu tempo, focando suas críticas ao idealismo egocentrista que se emergia em sua época, e até hoje sua obra é admirada tanto por leigos como por críticos literários.



UMA NOITE NO CAIRO



Noite no Egito. O céu claro e produndo
Fulgura. A rua é triste. A Lua cheia
Está sinistra, e sobre a paz do mundo
A alma dos Faraós anda e vagueia.

Os mastins negros vão ladrando à lua...
O Cairo é de uma formosura arcaica.
No ângulo mais recôndito da rua
Passa cantando uma mulher hebraica.

O Egito é sempre assim quando anoitece!
Às vezes, das pirâmides o quedo
E atro perfil, exposto ao luar, parece
Uma sombria interjeição de medo!

Como um contraste àqueles mesereres,
Num quiosque em festa alegre turba grita,
E dentro dançam homens e mulheres
Numa aglomeração cosmopolita.

Tonto do vinho, um saltimbanco da Ásia,
Convulso e roto, no apogeu da fúria,
Executando evoluções de razzia
Solta um brado epilético de injúria!

Em derredor duma ampla mesa preta
-- Última nota do conúbio infando --
Vêem-se dez jogadores de roleta
Fumando, discutindo, conversando.

Resplandece a celeste superfície.
Dorme soturna a natureza sábia...
Embaixo, na mais próxima planície,
Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.

Vaga no espaço um silfo solitário.
Troam kinnors! Depois tudo é tranqüilo...
Apenas como um velho stradivário,
Soluça toda a noite a água do Nilo!

Augusto dos Anjos

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Poema - Não te esqueças de mim

Poema - Não te esqueças de mim Fagundes Varella foi um dos maiores expoentes da poesia brasileira, em seu tempo.

Poema - Não te esqueças de mim Fagundes Varella



NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM!

Não te esqueças de mim, quando erradia
Perde-se a lua no sidéreo manto;
Quando a brisa estival roçar-te a fronte,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando escutares
Gemer a rola na floresta escura,
E a saudosa viola do tropeiro
Desfazer-se em gemido de tristura.

Quando a flor do sertão, aberta a medo,
Pejar os ermos de suave encanto,
Lembre-te os dias que passei contigo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando à tardinha
Se cobrirem de névoa as serranias,
E na torre alvejante o sacro bronze
Docemente soar nas freguesias!

Quando de noite, nos serões de inverno,
A voz soltares modulando um canto,
Lembre-te os versos que inspiraste ao bardo,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Não te esqueças de mim, quando meus olhos
Do sudário no gelo se apagarem,
Quando as roxas perpétuas do finado
Junto à cruz de meu leito se embalarem.

Quando os anos de dor passado houverem,
E o frio tempo consumir-te o pranto,
Guarda ainda uma idéia a teu poeta,
Não te esqueças de mim, que te amo tanto.

Fagundes Varella

Paranaguadas, de Cruz e Sousa



PARANAGUADAS


Que importa que tu fales
Que importa que tu files
Que importa que não cales,
Que importa que tu fales
Que importa que te rales,
Que importa-me essa bílis
Que importa que tu fales
Que importa que tu files.

João da Cruz e Sousa





Paranaguadas Cruz e Souza



POEMAS HUMORÍSTICOS E IRÔNICOS DE CRUZ E SOUSA
bn000098.pdf

Poema - A Flor do Amor, de Gonçalves Dias

Poema - A Flor do Amor, de Gonçalves Dias. Um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como "indianismo", é famoso por ter escrito o poema "Canção do Exílio" — um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira (Wikipedia)




Poema - A Flor do Amor, de Gonçalves Dias


A FLOR DO AMOR


já lento o passo, no cair da tarde,
Lá nos desertos d’abrasada areia,
Que o vento agita, porém não recreia,
da caravana o condutor parou.
Armam-se à pressa tendas alvejante,
Rumina plácido o frugal camelo;
Porém a nuvem d’árabes errantes
Se achega à presa, que de longe olhou.

E já, tomada a refeição noturna,
Junto a fogueira, que derrama vida,
Descansam todos da penosa lida
À voz canora, que o cantor alçou!
Confuso o ouvido um burburinho alcança,
As armas toma o árabe prudente;
Mas logo pensa, rejeitando a lança:
“Foi o grunhido que o chacal soltou.”

Ouvidos todo e curioso enlevo,
torna de novo a retomar seu posto;
Pela fogueira alumiado o rosto,
Bebendo as vozes que o cantor soltou;
Simelha a terra, quando aberta em fendas
Da noite o orvalho sequiosa espera;
E o corcel árabe encostado às tendas
Os sons lhe escuta, e de os ouvir folgou.

“Algures cresce (o trovador cantava)
Sempre fresca e virente e sempre bela,
Por influxo e poder de maga estrela,
Mimosa, pura e delicada flor!
Jazendo em sítio escuso e solitário,
Esforços é mister p’ra conhece-la,
Que diz a forte lei do seu fadário
Que a não descubra acaso o viajor. 

“Alva do albor dos lírios odorosos,
Tem a modéstia da violeta esquiva,
e o pronto retrair da sensitiva,
Que parece vestir-se de pudor!
Assim, à luz da cambiante aurora,
Mudando um poço a resplendente alvura,
De uns toque de carmim s’esmalta e cora
A graciosa e pudibunda flor.

“Faz-me mais puro o ar, mais brando o clima,
Onde cresce; amenizam-se os lugares,
Tornam-se menos agros os pesares
E menos viva, e quase nula a dor;
Fresca e branda alcatifa o chão matiza,
Com doce murmúrio as aguas correm,
e o leve sopro do correr da brisa
Volúpia embebe em mágico frescor!

“Feliz aquele que a encontrou na vida,
Que onde ela nasce tímida e fagueira
Não s’enovela a mó d’atra poeira,
Tangida pelo simum abrasador!
Ali sorri-se oásis venturoso,
Qu’entre deleites o viver matiza,
E ao que vai triste, aflito e sem repouso
Chama a descanso de comprido error!

“Feliz e mais que se, perdido, achara
Conforto e auxilio no catá, seu guia,
Que o leva a fonte perenal e fria
Onde se apaga o sitibundo ardor.
Tão feliz, qual talvez se o precedesse
Que por fanal noturno lhe acendesse
Maga estrela de límpido fulgor.

“Ai! porém do que a vê, e a não conhece,
Do que a suspira em vão, e a em vão procura,
Ou que achando-a, desiste da ventura
Por não entrar no oásis sedutor.
Essa flor descoberta por acerto
Nunca mais a verás! colhe, insensato,
Colhe abrolhos da vida no deserto;
Pois desprezaste a que produz o amor!”

Assim cantava o trovador; e todos
Ouvem-no com prazer de dor travado,
Que mais do que um talvez terá deixado
Atrás de si a pudibunda flor!
No entanto a nuvem d’árabes errantes
Chega-se à presa, que avistou de longe;
E dos corcéis, que alentam ofegante,
Precede a marcha túrbido pavor!

E, nado o sol, aquele que passava
Pelos desertos d’abrasada areia,
Que o rubro sangue de cruor roxeia,
A um lado o rosto pálido, voltou!
Ninguém as mortes lastimáveis chora,
Ninguém recolhe os restos insepultos,
E o mesmo orvalho, que goteja a aurora,
Sem borrifa-los, no areal ficou

Quem saberá do seu destino agora?
Ninguém! Somente em climas apartados
Miseranda mulher lastima os fados
De filho ou esposo, que jamais tornou!
Talvez porém, trás de montões d’areia,
Nobre corcel sem cavaleiro assoma,
E alonga avista, de pesares cheia,
Te onde a vida seu senhor deixou! 

Gonçalves Dias

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