quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Clamando...


Clamando..., de Cruz e Sousa. Segundo Antonio Candido, Cruz e Sousa foi o "único escritor eminente de pura raça negra na literatura brasileira, onde são numerosos os mestiços" (Wikipedia).
Clamando..., de Cruz e Sousa.


CLAMANDO...


 Bárbaros vãos, dementes e terríveis
 Bonzos tremendos de ferrenho aspecto,
 Ah! deste ser todo o clarão secreto
 Jamais pôde inflamar-vos, Impassíveis!

 Tantas guerras bizarras e incoercíveis
 No tempo e tanto, tanto imenso afeto,
 São para vós menos que um verme e inseto
 Na corrente vital pouco sensíveis.

 No entanto nessas guerras mais bizarras
 De sol, clarins e rútilas fanfarras,
 Nessas radiantes e profundas guerras...

 As minhas carnes se dilaceraram
 E vão, das llusões que flamejaram,
 Com o próprio sangue fecundando as terras...



Cruz e Sousa
Broquéis


Afra, de Cruz e Sousa


Afra, de Cruz e Sousa. No aspecto de influências do simbolismo, nota-se uma amálgama que conflui águas do satanismo de Charles Baudelaire ao espiritualismo (Wikipedia)

Afra, de Cruz e Sousa



AFRA


 Ressurges dos mistérios da luxúria,
 Afra, tentada pelos verdes pomos,
 Entre os silfos magnéticos e os gnomos
 Maravilhosos da paixão purpúrea.

 Carne explosiva em pólvoras e fúria
 De desejos pagãos, por entre assomos
 Da virgindade - casquinantes momos
 Rindo da carne já votada à incúria.
 Votada cedo ao lânguido abandono,
 Aos mórbidos delíquios como ao sono,
 Do gozo haurindo os venenosos sucos.

 Sonho-te a deusa das lascivas pompas,
 A proclamar, impávida, por trompas,
 Amores mais estéreis que os eunucos! 

Cruz e Sousa
Broquéis

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Primeira Comunhão

Primeira Comunhão, de João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro, 24 de novembro de 1861 — Curral Novo, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro.  Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, foi um dos precursores do simbolismo no Brasil. (Wikipedia


Primeira Comunhão



PRIMEIRA COMUNHÃO


 Grinaldas e véus brancos, véus de neve,
 Véus e grinaldas purificadores,
 Vão as Flores carnais, as alvas Flores
 Do Sentimento delicado e leve.

 Um luar de pudor, sereno e breve,
 De ignotos e de prônubos pudores,
 Erra nos pulcros virginais brancores
 Por onde o Amor parábolas descreve...

 Luzes claras e augustas, luzes claras
 Douram dos templos as sagradas aras,
 Na comunhão das níveas hóstias frias...

 Quando seios pubentes estremecem,
 Silfos de sonhos de volúpia crescem,
 Ondulantes, em formas alvadias... 


Cruz e Sousa
Broquéis

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Em Sonhos..., de Cruz e Sousa

Em Sonhos..., de Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca (Wikipedia)
Em Sonhos..., de Cruz e Sousa


EM SONHOS...


 Nos Santos óleos do luar, floria
 Teu corpo ideal, com o resplendor da Helade...
 E em toda a etérea, branda claridade
 Como que erravam fluidos de harmonia...

 As Águias imortais da Fantasia
 Deram-te as asas e a serenidade
 Para galgar, subir à Imensidade
 Onde o clarão de tantos sóis radia.

 Do espaço pelos límpidos velinos
 Os Astros vieram claros, cristalinos,
 Com chamas, vibrações, do alto, cantando...

 Dos santos óleos do luar envolto
 Teu corpo era o Astro nas esferas solto,
 Mais Sóis e mais Estrelas fecundando! 


Cruz e Sousa
Broquéis

domingo, 28 de janeiro de 2018

Judia


Judia, de João da Cruz e Sousa. Com a alcunha de Dante Negro ou Cisne Negro, foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.  Segundo Antonio Candido, Cruz e Sousa foi o "único escritor eminente de pura raça negra na literatura brasileira, onde são numerosos os mestiços"


JUDIA


 Ah! Judia! Judia impenitente!
 De erma e de turva região sombria 
 De areia fulva, bárbara, inclemente,
 Numa desolação, chegaste um dia...

 Través o céu mais tórrido, mais quente,
 Onde a luz mais flamívoma radia,
 A voz dos teus, nostálgica, plangente,
 Vibrou, chorou, clamou por ti, Judia!

 Ave de melancólicos mistérios,
 Ruflaste as asas por Azuis siderios,
 Ébria dos vícios célebres que salvam...

 Para alguns corações que ainda te buscam
 És como os sóis que rútilos coruscam
 E a torva terra do deserto escalvam! 


Cruz e Sousa
Broquéis

Braços, de Cruz e Sousa


Braços, de Cruz e Sousa. Em 1885, lançou o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea. Cinco anos depois foi para o Rio de Janeiro.
Braços, de Cruz e Sousa


BRAÇOS 


 Braços nervosos, brancas opulências,
 Brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
 Alvuras castas, virginais alvuras,
 Lactescências das raras lactescências.

 As fascinantes, mórbidas dormências
 Dos teus abraços de letais flexuras,
 Produzem sensações de agres torturas,
 Dos desejos as mornas florescências.

 Braços nervosos, tentadoras serpes
 Que prendem, tetanizam como os herpes,
 Dos delírios na trêmula coorte...

 Pompa de carnes tépidas e flóreas,
 Braços de estranhas correções marmóreas,
 Abertos para o Amor e para a Morte! 


Cruz e Sousa
Broquéis

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Poema Velhas Tristezas

Poema Velhas Tristezas de João da Cruz e Sousa. É certo que encontram-se muitas referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, à nebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus verso (Wikipedia)
Poema Velhas Tristezas



VELHAS TRISTEZAS


 Diluências de luz, velhas tristezas
 Das almas que morreram para a luta!
 Sois as sombras amadas de belezas
 Hoje mais frias do que a pedra bruta.

 Murmúrios incógnitos de gruta
 Onde o Mar canta os salmos e as rudezas
 De obscuras religiões - voz impoluta
 De todas as titânicas grandezas.

 Passai, lembrando as sensações antigas,
 Paixões que foram já dóceis amigas,
 Na luz de eternos sóis glorificadas.

 Alegrias de há tempos! E hoje e agora,
 Velhas tristezas que se vão embora
 No poente da Saudade amortalhadas!... 



Cruz e Sousa
Broquéis



Visão da Morte, de Cruz e Sousa

Visão da Morte, de Cruz e Souza. No aspecto de influências do simbolismo, nota-se uma amálgama que conflui águas do satanismo de Charles Baudelaire ao espiritualismo (e dentro desse, ideias budistas e espíritas) ligados tanto a tendências estéticas vigentes como as fases na vida do autor. (Wikipedia)
Visão da Morte, de Cruz e Souza




VISÃO DA MORTE


 Olhos voltados para mim e abertos
 Os braços brancos, os nervosos braços,
 Vens d'espaços estranhos, dos espaços
 Infinitos, intérminos, desertos...

 Do teu perfil os tímidos, incertos
 Traços indefinidos, vagos traços
 Deixam, da luz nos ouros e nos aços,
 Outra luz de que os céus ficam cobertos.

 Deixam nos céus uma outra luz mortuária,
 Uma outra luz de lívidos martírios,
 De agonias, de mágoa funerária...

 E causas febre e horror, frio, delírios,
 Ó Noiva do Sepulcro, solitária,
 Branca e sinistra no clarão dos círios! 


Cruz e Sousa
Broquéis

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