quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Poema Lua, de Cruz e Sousa

Poema Lua, de Cruz e Sousa. Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca (Wikipedia)

Poema Lua, de Cruz e Sousa



LUA


 Clâmides frescas, de brancuras frias, 
 Finíssimas dalmáticas de neve
 Vestem as longas árvores sombrias,
 Surgindo a Lua nebulosa e leve...

 Névoas e névoas frígidas ondulam...
 Alagam lácteos e fulgentes rios
 Que na enluarada refração tremulam
 Dentre fosforescências, calafrios...

 E ondulam névoas, cetinosas rendas
 De virginais, de prônubas alvuras...
 Vagam baladas e visões e lendas
 No flórido noivado das Alturas...

 E fria, fluente, frouxa claridade
 Flutua como as brumas de um letargo...
 E erra no espaço, em toda a imensidade,
 Um sonho doente, cilicioso, amargo...

 Da vastidão dos páramos serenos,
 Das siderais abóbadas cerúleas
 Cai a luz em antífonas, em trenos,
 Em misticismos, orações e dúlias...

 E entre os marfins e as pratas diluídas
 Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,
 Com grinaldas de roxas margaridas
 Vagam as Virgens de cismares ermos...

 Cabelos torrenciais e dolorosos
 Bóiam nas ondas dos etéreos gelos.
 E os corpos passam níveos, luminosos,
 Nas ondas do luar e dos cabelos...

 Vagam sombras gentis de mortas, vagam
 Em grandes procissões, em grandes alas,
 Dentre as auréolas, os clarões que alagam,
 Opulências de pérolas e opalas.

 E a Lua vai clorótica fulgindo
 Nos seus alperces etereais e brancos,
 A luz gelada e pálida diluindo
 Das serranias pelos largos flancos... 

 Ó Lua das magnólias e dos lírios!
 Geleira sideral entre as geleiras!
 Tens a tristeza mórbida dos círios
 E a lividez da chama das poncheiras!

 Quando ressurges, quando brilhas e amas,
 Quando de luzes a amplidão constelas,
 Com os fulgores glaciais que tu derramas
 Dás febre e frio, dás nevrose, gelas...

 A tua dor cristalizou-se outrora
 Na dor profunda mais dilacerada
 E das dores estranhas, ó Astro, agora,
 És a suprema Dor cristalizada!... 

Cruz e Sousa
Broquéis

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