domingo, 25 de março de 2018

Poema Visio, de Machado de Assis.

Poema Visio, de Machado de Assis. Sua extensa obra constitui-se de nove romances, duzentos contos, dez peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas (Wikipedia)


Poema Visio, de Machado de Assis.



VISIO

 ( 1864)
Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam...
Os olhos meio cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiam...

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes,
Os teus lábios sequiosos,
Frios, trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...

Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra – calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a visão do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes 
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes;
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.

Inda assim, embora sonho,
Mas, sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida 


Machado de Assis
Crisálidas


quarta-feira, 21 de março de 2018

Fé, de Machado de Assis.

Fé, de Machado de Assis. Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público
Fé, de Machado de Assis.


 (1863)


Mueve-me*
 enfin tu amor de tal manera
Que aunque no hubiera cielo yo te amara.
 SANTA THEREZA DE JESUS

 As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
 Os cânticos da terra.

    No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira bússola nos seja,
    Senhor, tua palavra.

   A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que há de abrir à estância eterna
   O fulgido caminho.

   Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
   Vê quanto vale a terra;

   Quando das glórias frias
Que o tempo dá e o mesmo tempo some,
Despida já, — os olhos moribundos
   Volta às eternas glórias;

   Feliz o que nos lábios,
No coração, na mente põe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
   No seio do infinito.

*
 Conforme o original, embora a grafia correta devesse ser mueveme


Machado de Assis
Crisálidas


segunda-feira, 19 de março de 2018

A Caridade, de Machado de Assis

A Caridade, de Machado de Assis. Hoje em dia, por sua inovação literária e por sua audácia em temas sociais e precoces, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção sem precedentes. (Wikipedia)




A CARIDADE

 (1861)

Ela tinha* no rosto uma expressão tão calma
Como o sono inocente e primeiro de uma alma
Donde não se afastou ainda o olhar de Deus;
Uma serena graça, uma graça dos céus**,
Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar,
E nas asas da brisa iam-lhe a ondear
Sobre o gracioso colo as delicadas tranças.

Levava pela mão duas gentis crianças.

Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto.
Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto
Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada
À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada
A infância lacrimosa, a infância desvalida,
Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida.

E tu, ó Caridade, ó virgem do Senhor,
No amoroso seio as crianças tomaste,
E entre beijos – só teus — o pranto lhes secaste
Dando-lhes leito e pão, guarida e amor*
.

*
 Note-se a cacofonia, como no original.
** Césu, no original, corrigido na errata. *
 Na errata, o verso escreve-se: Dando-lhes pão, guarida, amparo, leito e amor


Machado de Assis
Crisálidas


sábado, 17 de março de 2018

Dinheiro, de Álvares de Azevedo

Dinheiro, de Álvares de Azevedo. Poemas Malditos.


Dinheiro, de Álvares de Azevedo.

D I N H E I R O


Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune,
 adoré; on a consideration, honneur,
qualités, vertus. Quand on n'a point d'argent,
on est dans la dépendance de toutes ces
choses et de tout le monde.
CHATEAUBRIAND



Sem ele não há cova—quem enterra
Assim gratis a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora

Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dánaes também o adoram.
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte, Alma
Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!

O mundo é para todos.... Certamente,
Assim o disse Deus—mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo.
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim—concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.1

Álvares de Azevedo




quinta-feira, 15 de março de 2018

Minha desgraça, de Álvares de Azevedo

Minha desgraça, de Álvares de Azevedo. Poemas Malditos.


Minha desgraça, de Álvares de Azevedo



MINHA DESGRAÇA


Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco, 
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco....

Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro. . .
Eu sei . O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro. . .

Minha desgraça, ó cândida donzela
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.


Álvares de Azevedo



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