segunda-feira, 23 de abril de 2018

No Gólgota, de Emílio Meneses

No Gólgota, de Emílio Nunes Correia de Meneses foi um jornalista e poeta parnasiano brasileiro, imortal da Academia Brasileira de Letras e mestre dos sonetos satíricos. Para Glauco Mattoso, o poeta paranaense é o principal poeta satírico brasileiro após Gregório de Mattos. (Wikipedia)

No Gólgota, de Emílio Meneses

NO GÓLGOTA


I

"-Para atenuar o horror desta vida sem tréguas,
Sondo-a e busco entendê-la, arcano por arcano.
Para que as más paixões te não sigam, carrego-as
Sobre os frágeis e vis ombros de humilde e humano.

As dores que este sofre e aquele sofre, rego-as
Só do meu pranto, só do meu sangue espartano." –
E assim falando o Poeta, a voz, léguas e léguas,
Por terra e céus se ouviu num clangor soberano.

Mas tudo emudeceu ante o voto supremo...
E nem um Cireneu ao novo Cristo: e a carga,
Ele a leva, a cantar, de um extremo a outro extremo!

E oh! Poeta! O mundo só te dá para tão larga,
Missão, diante da qual também arquejo e tremo,
A dor que mais te dói e o fel que mais te amarga.

II

Rugem-te em derredor os Fariseus e Escribas
E a alma humana moderna – essa nova Aquerusa
De pauis marginais e pestilentes ribas –
Busca, embalde, afogar-te a imorredoura Musa.

Grandiosa ou meiga ou pura, uma idéia que exibas
Irritas a multidão que raivosa te acusa.
Mas do Outeiro da Luz a que afinal arribas,
Hás de vê-la a teus pés deslumbradas e confusa.

Tu, cujo verso em forma e em colorido assume
Revelos de Cellini ou tintas de Correggio,
Quer eleves o amor, quer exaltes o ciúme,

Sofre e sangra por teu sonho de ideal. Inveje-o
Embora, o mundo vil! Todo o teu ser resume,
Na plenitude astral daquele sonho egrégio!...

III

Do sonho que te aclara o luminoso espectro,
Cor a cor, queres dar na cambiante da rima.
Lira d’oiro entre mãos, a desferi-la ao plectro,
Verso a verso vais ter do teu Gólgota acima.

Lapidário tenaz, no tórculo do metro
Premes a forma e a forma entre os teus versos prima;
Passo a passo eu te sigo e esse abysmo penetro,
A cujo centro, em fogo, o teu estro se anima.

Quer tenhas sobre ti bênçãos que o céu reparte,
Ou tenhas o que sofro, examino e contemplo,
- Venhas de tu um Paul ou de algum templo de arte, -

Deves sempre seguir o fatídico exemplo:
Para que o mundo vil possa um dia adorar-te
É preciso enxotar os vendilhões do Templo.

IV

Se além de um Sinedrim de inúmeros Caifazes
Cuja falsa noção, do sonho de seqüestra;
Se do lenho, apesar, que sobre os ombros trazes,
Nessa face divina Ahasvero espalma a destra;

Se não gozas em vida essas glórias falazes
Em cujo meio vil a alma dos vis se amestra,
Tens em compensação, dos teus versos audazes,
Vibrando eternamente, a formidanda orquestra.

Para te alvorecer a existência sombria,
Tiveste, no Jordão, da água lustra a cena
Cuja recordação na alma humana irradia,

E atingiste os dois graus de ventura terrena;
Sugaste ao nascimento o seio de Maria,
E do cimo da Cruz, vês o de Madalena!...

V

Que importa que Adriano em profanosa cena
Chegue ao Gólgota e insulte a tua catacumba?
Após ele terás a imperatriz Helena,
Quer triunfe o teu estro ou teu estro sucumba.

Se sofres do martírio as dores, pena a pena,
O clangor do teu verso entre glórias retumba.
- Que te importa sofrer se a tortura é pequena
Ante o peso com que teu verbo as almas chumba?

Seja o teu tribunal de cátedra ou de exédra;
Tenha o teu leito embora um cravo em cada fulcro,
Sabes que no porvir somente o gênio medra.

Certo, resplenderá teu espírito pulchro,
E, ao tombar sobre ti da tumba a horrenda pedra,
Todos irão beijar o teu Santo Sepulchro.

VI

Que vale teres tido, a iniqüidade humana,
Escribas, fariseus, Cartáfilos e Herodes?
Eles só podem ver pela Santa Semana
O quanto a alma dos bons pelo teu bom acordes.

Redres a cepa sempre, e sempre a rama podes
Dessa Vinha de Fé de onde o teu sangue emana,
E ela viverá nos psalmos e nas odes
Que te ouvem desferir à lyra soberana.

Catharma resplendente o teu martyrio esvurma
Luzes, sóis e não pus, quer o gênio apostrofes,
quer do gênio em teu leito um gênio amigo durma.

Hás de enfim ressurgir, sonhes ou filososfes,
E ante, dos guardas teus, a laucinada turma,
Escalarás o céu num resplendor de Estrofes!...


Emílio de Meneses



Por Literatura em Série

Veja também:


Compartilhe nas Redes Sociais!
compartilhe compartilhe compartilhe compartilhe


Observação:
Ressalvados os casos indicados ao contrário, as obras aqui publicadas tem como fonte material em Domínio Público, sendo obras livres em razão de alguma das hipóteses previstas na Lei de Direitos Autorais Lei Federal nº 9.610/98. Busca-se preservar ao máximo a grafia original. Para mais informações confira os Termos de Uso.


Blog especializado em Literatura com fins educativos. Principais temas abordados: literatura universal, literatura nacional, escritores, poemas literarios, livros e autores da literatura brasileira. Sugerido para elaboração de resumo e resenha.

0 comentários:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.