segunda-feira, 23 de abril de 2018

O Soldado Espanhol.


O Soldado Espanhol, de Gonçalves Dias. Um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como "indianismo", é famoso por ter escrito o poema "Canção do Exílio" (Wikipedia)


O Soldado Espanhol, de Gonçalves Dias.

O Soldado Espanhol


Un soldat au dur visage
-- V. Hugo


I

Oh! qui révélera les troubles, les mystères
Que ressentent d'abord deux amants solitaires
Dans l'abandon d'un chaste amour?
-- Amour et Foi

O céu era azul, tão meigo e tão brando,
A terra tão erma, tão quieta e saudosa,
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa.

O céu era azul, e na cor semilhava
Vestido sem nódoa de pura donzela;
E a terra era a noiva que bem se arreava
De flores, matizes; mas vária, mas bela.

Ela era brilhante,
Qual raio do sol;
E ele arrogante,
De sangue espanhol.

E o espanhol muito amava
A virgem mimosa e bela;
Ela amante, ele zeloso
Dos amores da donzela; 
Ele tão nobre e folgando
De chamar-se escravo dela!

E ele disse: - Vês o céu? -
E ela disse: - Vejo. sim;
Mais polido que o polido
Do meu véu azul cetim. -
Torna-lhe ele. .. (oh! quanto é doce
Passar-se uma noite assim!).

- Por entre os vidros pintados
D'igreja antiga, a luzir
Não vês luz? - Vejo. - E não sentes
De a veres, meigo sentir?
- É doce ver entre as sombras
A luz do templo a luzir!

- E o mar, além, preguiçoso
Não vês tu em calmaria?
- É belo o mar; porém sinto,
Só de o ver, melancolia.
- Que mais o teu rosto enfeita
Que um sorriso de alegria.

- E eu tão bem acho em ser triste
Do que alegre, mais prazer;
Sou triste, quando em ti penso,
Que só me falta morrer;
Mesmo a tua voz saudosa
Vem minha alma entristecer.

- E eu sou feliz, como agora,
Quando me falas assim;
Sou feliz quando se riem
Os lábios teus de carmim;
Quando dizes que me, adoras,
Eu sinto o céu dentro em mim.

- És tu só meu Deus, meu tudo,
És tu só meu puro amar,
És tu só que o pranto podes
Dos meus olhos enxugar. -
Com ela repete o amante:
- És tu só meu puro amar! -

E o céu era azul, tão meigo e tão brando
E a terra tão erma, tão só, tão saudosa,
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa!


II

Ainsi donc aujourd'hui, demain, après encore,
Il faudra voir sans tal naître et mourir l'aurore! 

-- V. Hugo

E o espanhol viril, nobre e formoso,
No bandolim
Seus amores dizia mavioso,
Cantando assim:

"Já me vou por mar em fora
Daqui longe a mover guerra,
Já me vou, deixando tudo,
Meus amores, minha terra.

"Já me vou lidar em guerras,
Vou-me a Índia ocidental;
Hei de ter novos amores. . .
De guerras... não temas al.

"Não chores, não, tão coitada,
Não chores por t'eu deixar;
Não chores, que assim me custa
O pranto meu sofrear.

"Não chores! - sou como o Cid
Partindo para a campanha;
Não ceifarei tantos louros,
Mas terei pena tamanha."

E a amante que assim o via
Partir-se tão desditoso,
- Vai, mas volta; lhe dizia:
Volta, sim, vitorioso.

"Como o Cid, oh! crua sorte
Não me vou nesta campanha
Guerrear contra o crescente,
Porém sim contra os d'Espanha!

"Não me aterram; porém sinto
Cerrar-se o meu coração,
Sinto deixar-te, meu anjo,
Meu prazer, minha afeição.

"Como é doce o romper d'alva,
É-me doce o teu sorrir,
Doce e puro, qual d'estrela
De noite - o meigo luzir.

"Eram meus teus pensamentos,
Teu prazer minha alegria,
Doirada fonte d'encantos,
Fonte da minha poesia.

"Vou-me longe, e o peito levo
Rasgado de acerba dor, 
Mas comigo vão teus votos,
Teus encantos, teu amor!

"Já me vou lidar em guerras,
Vou-me a Índia ocidental;
Hei de ter novos amores. . .
De guerras... não temas al."

Esta era a canção que acompanhava
No bandolim,
Tão triste, que de triste não chorava
Dizendo assim:

III

O Conde deu o sinal da partida
- À caça! meus amigos.
-- Burger

"Quero, pajens, selado o ginete,
Quero em punho nebris e falcão,
Qu'é promessa de grande caçada
Fresca aurora d'amigo verão.

"Quero tudo luzindo, brilhante
- Curta espada e venab'lo e punhal,
Cães e galgos farejem diante
Leve odor de sanhudo animal.

"E ai do gamo que eu vir na coutada,
Corça, onagro, que eu primo avistar!
Que o venab'lo nos ares voando
Lhe há de o salto no meio quebrar.

Eia, avante! - Dizia folgando
O fidalgo mancebo, loução:
- Eia, avante? - e já todos galopam
Trás do moço, soberbo infanção.

E partem, qual do arco arranca e voa
Nos amplos ares, mais veloz que a vista,
A plúmea seta da entesada corda.
Longe o eco reboa: - já mais fraco,
Mais fraco ainda, pelos ares voa.
Dos cães dúbio o latir se escuta apenas,
Dos ginetes tropel, rinchar distante
Que em lufadas o vento traz por vezes.
Já som nenhum se escuta... Quê? - latido
De cães, incerto, ao longe? Não, foi vento
Na torre castelã batendo acaso,
Nas seteiras acaso sibilando
Do castelo feudal, deserto agora. 


IV

Vois, à l'horizon
Aucune maison?
- Aucune.
-- V. Hugo

Já o sol se escondeu; cobre a terra
Belo manto de frouxo luar;
E o ginete, que esporas atracam,
Nitre e corre sem nunca parar.
Da coutada nas ínvias ramagens
Vai sozinho o mancebo infanção;
Vai sozinho, afanoso trotando
Sem temores, sem pajens, sem cão.
Companheiros da caça há perdido,
Há perdido no aceso caçar;
Há perdido, e não sente receio
De sozinho, nas sombras trotar.
Corno ebúrneo embocou muitas vezes,
Muitas vezes de si deu sinal;
Bebe atento a resposta, e não ouve
Outro som responder-lhe; inda mal!
E o ginete que esporas atracam,
Nitre e corre sem nunca parar;
Já o sol se escondeu, cobre a terra
Belo manto de frouxo luar.


V
De rosée
Arrosée.
La rose a moins de fraîcheur.
-- Henrique IV

Silêncio grato da noite
Quebram sons duma canção,
Que vai dos lábios de um anjo
Do que escuta ao coração.

Dizia a letra mimosa
Saudades de muito amar;
E o infanção enleiado 
Atento, pôs-se a escutar.

Era encantos voz tão doce,
Incentivo essa ternura,
Gerava delícias n'alma
Sonhar d'havê-la a ventura.

Queixosa cantava a esposa
Do guerreiro que partiu,
Largos anos são passados,
Missiva dele não viu. . .

Parou!... escutando ao perto
Responder-lhe outra canção!...
Era terna a voz que ouvia,
Lisonjeira - do infanção:

"Tenho castelo soberbo
Num monte, que beija um rio,
De terras tenho no Doiro
Jeiras cem de lavradio;

"Tenho lindas haquenéias,
Tenho pajens e matilha,
Tenho os milhores ginetes
Dos ginetes de Sevilha;

"Tenho punhal, tenho espada
D'alfageme alta feitura,
Tenho lança, tenho adaga,
Tenho completa armadura.

"Tenho fragatas que cingem
Dos mares a linfa clara,
Que vão preiando piratas
Pelas rochas de Megara.

"Dou-te o castelo soberbo
E as terras do fértil Doiro,
Dou-te ginetes e pajens
E a espada de pomo d'oiro.

"Dera a completa armadura
E os meus barcos d'alto-mar,
Que nas rochas de Megara
Vão piratas cativar.

"Fala de amores teu canto,
Fala de acesa paixão. . .
Ah! senhora, quem tivera
Dos agrados teus condão!

"Eu sou mancebo, sou Nobre,
Sou nobre moço infanção;
Assim podesse o meu canto
Algemar-te o coração,
Ó Dona, que eu dera tudo
Por vencer-te essa isenção!

Atenta escutava a esposa
Do guerreiro que partiu,
Largos anos são passados,
Missiva dele não viu;
Mas da letra que escutava
Delícias n'alma sentiu.


VI

Si tu voulais, Madeleine,
Je te ferais châtelaine;
Je suis le comte Roger: -
Quitte pour moi ces chaumières,
A moins que tu me préfères
Que je me fasse berger.
-- V. Hugo

E noutra noite saudoso
Bem junto dela sentado,
Cantava brandas endechas
O gardingo namorado.

"Careço de ti, meu anjo,
Careço do teu amor,
Como da gota d'orvalho
Carece no prado a flor.

"Prazeres que eu nem sonhava
Teu amor me fez gozar;
Ah! que não queiras, senhora,
Minha dita rematar.

"O teu marido é já morto,
Notícia dele não soa;
Pois desta gente guerreira
Bastos ceifa a morte à toa.

"Ventura me fora ver-te
Nos lábios teus um sorriso,
Delícias me fora amar-te,
Gozar-te meu paraíso.

"Sinto aflição, quando choras;
Se te ris, sinto prazer;
Se te ausentas, fico triste,
Que só me falta morrer.

"Careço de ti, meu anjo,
Careço do teu amor, 
Como da gota d'orvalho
Carece no prado a flor."

VII

L'époux, dont nul ne se souvient,
Vient;
Il va punir ta vie infâme,
Femme!
-- V. Hugo

Era noite hibernal; girava dentro
Da casa do guerreiro o riso, a dança,
E reflexos de luz, e sons, e vozes,
E deleite, e prazer: e fora a chuva,
A escuridão, a tempestade, e o vento,
Rugindo solto, indômito e terrível
Entre o negror do céu e o horror da terra.
Na geral confusão os céus e a terra
Horrenda simpatia alimentavam.

Ferve dentro o prazer, reina o sorriso,
E fora a teritar, fria, medonha,
Marcha a vingança pressurosa e torva:
Traz na destra o punhal, no peito a raiva,
Nas faces palidez, nos olhos morte.
O infanção extremoso enchia rasa
A taça de licor mimoso e velha,
Da usança ao brinde convidando a todos
Em honra da esposada: - À noiva! exclama.

E a porta range e cede, e franca e livre
Introduz o tufão, e um vulto assoma
Altivo e colossal. - Em honra, brada,
Do esposo deslembrado! - e a taça empunha,
Mas antes que o licor chegasse aos lábios,
Desmaiada e por terra jaz a esposa,
E a destra do infanção maneja o ferro,
Por que tão grande afronta lave o sangue,
Pouco, bem pouco para injúria tanta.
Debalde o fez, que lhe golfeja o sangue
D'ampla ferida no sinistro lado,
E ao pé da esposa o assassino surge
Co'o sangrento punhal na destra alçado.

A flor purpúrea que matiza o prado,
Se o vento da manhã lhe entorna o cálix,
Perde aroma talvez; porém mais belo
Colorido lhe vem do sol nos raios.
As fagueiras feições daquele rosto
Assim foram tão bem; não foi do tempo
Fatal o perpassar às faces linda
Nota-lhe ele as feições, nota-lhe os lábios,
Os curtos lábios que lhe deram vida,
Longa vida de amor em longos beijos,
Qual jamais não provou; e as iras todas
Dos zelos vingadores descansaram
No peito de sofrer cansado e cheio,
Cheio qual na praia fica a esponja,
Quando a vaga do mar passou sobre ela.

Num relance fugiu, minaz no vulto:
Como o raio que luz um breve instante,
Sobre a terra baixou, deixando a morte. 

Gonçalves Dias
Primeiros Cantos


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