quinta-feira, 26 de abril de 2018

Os Alerquins, de Machado de Assis.

Os Alerquins, de Machado de Assis.  foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil

Os Alerquins, de Machado de Assis.

OS ARLEQUINS

SÁTIRA

(1864)

 Que deviendras dans l’éternité l’âme d’un
 homme qui a fait Polichinelle toute sa vie?
 M.ME DE STAEL

 Musa, depõe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
 Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
 Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
 Musa, toma a vergasta,
 E os arlequins fustiga!

 Como aos olhos de Roma,
— Cadáver do que foi, pávido império
 De Caio e de Tibério, —
O filho de Agripina ousado assoma;
 E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
 Pedia, ameaçando,
 O aplauso acostumado;

 E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
 De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
 E tu, tu não te abrias,
Ó céu de Roma, à cena degradante!
 E tu, tu não caías,
 Ó raio chamejante!

 Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
 O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia populaça;
 Não busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
 Não encanta o ouvido,
 Fascina a consciência!

 Vede; o aspecto vistoso,
O olhar seguro, altivo e penetrante,
 E certo ar arrogante
Que impõe com aparências de assombroso;
 Não vacila, não tomba, 
Caminha sobre a corda firme e alerta:
 Tem consigo a maromba
 E a ovação é certa.

 Tamanha gentileza,
Tal segurança, ostentação tão grande,
 A multidão expande
Com ares de legítima grandeza.
 O gosto pervertido
Acha o sublime neste abatimento,
 E dá-lhe agradecido
 O louro e o monumento.

 Do saber, da virtude,
Logra fazer, em prêmio dos trabalhos,
 Um manto de retalhos
Que a consciência universal ilude.
 Não cora, não se peja
Do papel, nem da máscara indecente,
 E ainda inspira inveja
 Esta glória insolente!

 Não são contrastes novos;
Já vem de longe; e de remotos dias
 Tornam em cinzas frias
O amor da pátria e as ilusões dos povos.
 Torpe ambição sem peias
De mocidade em mocidade corre,
 E o culto das idéias
 Treme, convulsa e morre.

 Que sonho apetecido
Leva o ânimo vil a tais empresas?
 O sonho das baixezas:
Um fumo que se esvai e um vão ruído;
 Uma sombra ilusória
Que a turba adora ignorante e rude;
 E a esta infausta glória
 Imola-se a virtude.

 A tão estranha liça
Chega a hora por fim do encerramento,
 E lá soa o momento
Em que reluz a espada da justiça.
 Então, musa da história,
Abres o grande livro, e sem detença
 À envilecida glória
 Fulminas a sentença. 


Machado de Assis
Crisálidas

Leia também: A Caridade, de Machado de Assis


Notas do autor.  Esta poesia foi recitada no Clube Fluminense, num sarau literário. Pareceu então que eu fazia sátira pessoal. Não fiz. A sátira abrange uma classe que se encontra em todas as cenas políticas, — é a classe daqueles que, como se exprime um escritor, depois de darem ao povo todas as insígnias da realeza, quiseram completar-lha, fazendo-se eles próprios os bobos do povo. 

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