terça-feira, 10 de abril de 2018

Poema AURORA, de Fagundes Varella


Poema AURORA, de Fagundes Varella. Poeta romântico e boêmio inveterado, Fagundes Varella foi um dos maiores expoentes da poesia brasileira, em seu tempo.


Poema AURORA, de Fagundes Varella


AURORA


Antes de erguer-se de seu leito de ouro,
O rei dos astros o Oriente inunda
 De sublime clarão;
Antes de as asas desprender no espaço,
A tempestade agita-se e fustiga
 O turbilhão dos euros.

As torrentes de idéias que se cruzam,
O pensamento eterno que se move
 No levante da vida,
São auras santas, arrebóis esplêndidos,
Que precedem à vinda triunfante
 De um sol imorredouro.

O murmurar profundo, enrouquecido,
Que do seio dos povos se levanta,
 Anuncia a tormenta;
Essa tormenta salutar e grande
Que o manto roçará, prenhe de fogo,
 Na face das nações.

Preparai-vos, ó turbas! Preparai-vos,
Rebatei vossos ferros e cadeias,
 Algozes e tiranos!
A hora se aproxima pouco a pouco,
E o dedo do Senhor já volve a folha
 Do livro do destino!

Grande há de ser o drama, a ação gigante,
Majestosa a lição! luzes e trevas
 Lutarão sobre os orbes!
O abismo soltará seus tredos roncos, 
E o frêmito dos mares agitados
 Se unirá aos das turbas.

Os reis convulsarão nos tronos frágeis,
Buscando embalde sustentar nas frontes
 As úmidas coroas...
Debalde!... o vendaval na fúria insana
Os levará com elas, envolvidos
 Num turbilhão de pó!

Vis, abatidos, o fidalgo e o rico
Sairão de seus paços vacilantes
 Nos podres alicerces...
E errantes sobre a terra irão chorando,
Mendigar um farrapo ao vagabundo,
 E um pedaço de pão!

Estranho povo surgirá da sombra
Terrível e feroz cobrindo os campos
 De cruentos horrores!
O palácio e a prisão irão por terra,
E um segundo dilúvio, então de sangue,
 O mundo lavará!

O sábio em seu retiro, estupefato,
Verá tombar a imagem da ciência,
 Fria estátua de argila,
E um pálido clarão dirá que é perto
O astro divinal que às turbas míseras
 Conduz a redenção!

Como aos dias primeiros do universo,
O globo se erguerá banhado em luzes,
 Reflexos de Deus;
E a raça humana sob um céu mais puro
Um hino insigne enviará, prostrada
 Aos pés do Onipotente!

Irmãos todos serão; todos felizes;
Iguais e belos, sem senhor nem peias,
 Nem tiranos e ferros!
O amor os unirá num laço estreito,
E o trânsito da vida uma romagem
 Se tornará celeste!

A hora se aproxima pouco a pouco;
O dedo do Senhor já volve a folha
 Do livro do destino!...
Ergue-se a tela do teatro imenso,
E o mistério infinito se desvenda
 Do drama do Calvário


 Fagundes Varella



Por Literatura em Série

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