sábado, 2 de junho de 2018

Ludovina Moutinho de Machado de Assis

Ludovina Moutinho de Machado de Assis. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e crítico literário

Ludovina Moutinho de Machado de Assis

LUDOVINA MOUTINHO

ELEGIA*
(1861)

A bondade choremos inocente
Cortada em flor que, pela mão da morte,
Nos foi arrebatada d’entre a gente.
 CAMÕES – Elegias

Se, como outrora, nas florestas virgens,
Nos fosse dado – o esquife que te encerra*
Erguer a um galho de árvore frondosa,
Certo, não tinhas um melhor jazigo
Do que ali, ao ar livre, entre os perfumes
Da florente estação, imagem viva
De teus cortados dias, e mais perto
           Do clarão das estrelas.

Sobre teus pobres e adorados restos,
Piedosa a noite, ali derramaria
De seus negros cabelos puro orvalho;
À borda do teu último jazigo
Os alados cantores da floresta
Iriam sempre modular seus cantos;
Nem letra, nem lavor de emblema humano,
Relembraria a mocidade morta;
Bastava só que ao coração materno,
Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos,
Um aperto, uma dor, um pranto oculto,
Dissesse: — Dorme aqui, perto dos anjos,
A cinza de quem foi gentil transunto
           De virtudes e graças.

Mal havia transposto da existência
Os dourados umbrais; a vida agora
Sorria-lhe toucada dessas flores
Que o amor, que o talento e a mocidade
           A urna repartiam.

Tudo lhe era presságio alegre e doce;
Uma nuvem sequer não sombreava,
Em sua fronte, o íris da esperança;
Era, enfim, entre os seus a cópia viva
Dessa ventura que os mortais almejam,
E que raro a fortuna, avessa ao homem,
           Deixa gozar na terra.
Mas eis que o anjo pálido da morte
A pressentiu feliz e bela e pura,
E, abandonando a região do olvido,
Desceu à terra, e sob a asa negra
A fronte lhe escondeu; o frágil corpo
Não pôde resistir; a noite eterna
           Veio fechar seus olhos:
           Enquanto a alma abrindo
As asas rutilantes pelo espaço,
Foi engolfar-se em luz, perpetuamente,
 No seio do infinito;
Tal a assustada pomba, que na árvore
O ninho fabricou, — se a mão do homem
Ou a impulsão do vento um dia abate
O recatado asilo, — abrindo o vôo,
           Deixa os inúteis restos
E, atravessando airosa os leves ares,
Vai buscar noutra parte guarida.

Hoje, do que era ainda a lembrança resta,
E que lembrança! Os olhos fatigados
Parecem ver passar a sombra dela;
O atento ouvido inda lhe escuta os passos;
E as teclas do piano, em que seus dedos
Tanta harmonia despertavam antes,
Como que soltam essas doces notas
Que outrora ao seu contato respondiam.

Ah! pesava-lhe este ar da terra impura,
Faltava-lhe esse alento de outra esfera,
Onde, noiva dos anjos, a esperavam
           As palmas da virtude.

Mas, quando assim a flor da mocidade
Toda se esfolha*
 sobre o chão da morte,
Senhor, em que firmar a segurança
Das venturas da terra ? Tudo morre;
À sentença fatal nada se esquiva,
O que é fruto e o que é flor. O homem cego
Cuida haver levantado em chão de bronze
Um edifício resistente aos tempos,
Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro,
           O castelo se abate,
Onde, doce ilusão, fechado havias
Tudo o que de melhor a alma do homem
           Encerra de esperanças.

           Dorme, dorme tranqüila
Em teu último asilo: e se eu não pude
Ir espargir também algumas flores
Sobre a lájea da tua sepultura;
Se não pude, — eu que há pouco te saudava
Em teu erguer, estrela, — os tristes olhos
Banhar nos melancólicos fulgores,
Na triste luz do teu recente ocaso,
Deixo-te ao menos nestes pobres versos
Um penhor de saudade, e lá na esfera
Aonde aprouve ao Senhor chamar-te cedo,
Possas tu ler nas pálidas estrofes
         A tristeza do amigo.

Machado de Assis
Crisálidas


* O autor optou por este título em suas Poesias Completas. 
* Manteve-se o travessão, tal como na edição original. 
* No original consta desfolha, na errata, esfolha: possivelmente para caber na métrica, em decassílabos. 

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