quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Adão e Eva, de Machado de Assis

Adão e Eva, de Machado de Assis.


Adão e Eva, de Machado de Assis

Adão e Eva

Machado de Assis


UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e
tantos, tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas,
grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a
dona da casa chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam
todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a
responsabilidade da perda do paraíso devia caber a Eva ou a Adão. As
senhoras diziam que a Adão, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora,
que não dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da
casa, D. Leonor:
— Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e não mentia, porque
era insigne na viola e na harpa, não menos que na teologia.
Consultado, o juiz-de-fora respondeu que não havia matéria para opinião;
porque as cousas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que
está contado no primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo. Espanto geral,
riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos
sujeitos da cidade, e sabia que era também jovial e inventivo, e até amigo da
pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era
gravíssimo.
— Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faça calar o Sr. Veloso.
— Não o faço calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca há de sair
tudo com boa significação.
— Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo João Barbosa.
— Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o
Sr. Veloso conhece outros livros...
— Conheço o autêntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce
que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se não mandam
o contrário.
— Vá lá, diga.
— Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus
que criou o mundo, foi o Diabo...
— Cruz! exclamaram as senhoras.
— Não diga esse nome, pediu D. Leonor.
— Sim, parece que... ia intervindo frei Bento.
— Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu
no pensamento, deixou-lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou
atenuar a obra, a fim de que ao próprio mal não ficasse a desesperança da
salvação ou do benefício. E a ação divina mostrou-se logo porque, tendo o
Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No
segundo dia, em que foram criadas as águas, nasceram as tempestades e os
furacões; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino. No terceiro
dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas só os vegetais sem fruto
nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, porém,
criou as árvores frutíferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o
Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as
estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da
terra, da água e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui peço que redobrem de
atenção.
Não era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa.
Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo
depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso não podia dar,
e só com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com
outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a
misericórdia divina; fez brotar um jardim de delícias, e para ali os conduziu,
investindo-os na posse de tudo. Um e outro caíram aos pés do Senhor,
derramando lágrimas de gratidão. "Vivereis aqui", disse-lhe o Senhor, "e
comereis de todos os frutos, menos o desta árvore, que é a da ciência do
Bem e do Mal."
Adão e Eva ouviram submissos; e ficando sós, olharam um para o outro,
admirados; não pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os
bons sentimentos, cogitava de armar um laço a Adão, e Adão tinha ímpetos
de espancá-la. Agora, porém, embebiam-se na contemplação um do outro,
ou na vista da natureza, que era esplêndida. Nunca até então viram ares tão
puros, nem águas tão frescas, nem flores tão lindas e cheirosas, nem o sol
tinha para nenhuma outra parte as mesmas
torrentes de claridade. E dando as mãos percorreram tudo, a rir muito, nos
primeiros dias, porque até então não sabiam rir. Não tinham a sensação do
tempo. Não sentiam o peso da ociosidade; viviam da contemplação. De tarde
iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente
chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos.
Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. Não podia
ir ao paraíso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor;
mas ouvindo um rumor no chão entre folhas secas, olhou e viu que era a
serpente. Chamou-a alvoroçado.
— Vem cá, serpe, fel rasteiro, peçonha das peçonhas, queres tu ser a
embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai?
A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o
Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a
mandasse, — às estrelas, se lhe desse as asas da águia — ao mar, se lhe
confiasse o segredo de respirar na água — ao fundo da terra, se lhe ensinasse
o talento da formiga. E falava a maligna, falava à toa, sem parar, contente e
pródiga da língua; mas o diabo interrompeu-a:
— Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem à terra, mas tão-somente ao
jardim de delícias, onde estão vivendo Adão e Eva.
— Adão e Eva?
— Sim, Adão e Eva.
— Duas belas criaturas que vimos andar há tempos, altas e direitas como
palmeiras?
— Justamente.
— Oh! detesto-os. Adão e Eva? Não, não, manda-me a outro lugar. Detestoos!
Só a vista deles faz-me padecer muito. Não hás de querer que lhes faça
mal...
— É justamente para isso.
— Deveras? Então vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda,
dize depressa o que queres que faça. Que morda o calcanhar de Eva?
Morderei...
— Não, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrário. Há no jardim
uma árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal; eles não devem tocar nela,
nem comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na árvore, e quando um deles
ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que é
a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que não, tu insistirás,
dizendo que é bastante comê-la para conhecer o próprio segredo da vida.
Vai, vai...
— Vou; mas não falarei a Adão, falarei a Eva. Vou, vou. Que é o próprio
segredo da vida, não?
— Sim, o próprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do
mal, e se te saíres bem, juro que terás a melhor parte na criação, que é a
parte humana, porque terás muito calcanhar de Eva que morder, muito
sangue de Adão em que deitar o vírus do mal... Vai, vai, não te esqueças...
Esquecer? Já levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraíso, rastejou até a
árvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu daí a pouco,
caminhando sozinha, esbelta, com a segurança de uma rainha que sabe que
ninguém lhe arrancará a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a
peçonha à língua, mas advertiu que estava ali às ordens do Tinhoso, e, com a
voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu.
— Quem me chama?
— Sou eu, estou comendo desta fruta...
— Desgraçada, é a árvore do Bem e do Mal!
— Justamente. Conheço agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida.
Anda, come e terás um grande poder na terra.
— Não, pérfida!
— Néscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que
te digo, e serás legião, fundarás cidades, e chamar-te-ás Cleópatra, Dido,
Semíramis; darás heróis do teu ventre, e serás Cornélia; ouvirás a voz do
céu, e serás Débora; cantarás e serás Safo. E um dia, se Deus quiser descer à
terra, escolherá as tuas entranhas, e chamar-te-ás Maria de Nazaré. Que mais
queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta
obediência. Nem será só isso. Toda a natureza te fará bela e mais bela. Cores
das folhas verdes, cores do céu azul, vivas ou pálidas, cores da noite, hão de
refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, virá brincar nos
teus cabelos. Os filhos do teu seio tecerão para ti as melhores vestiduras,
comporão os mais finos aromas, e as aves te darão as suas plumas, e a terra
as suas flores, tudo, tudo, tudo...
Eva escutava impassível; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta
de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma
outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a
serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso.
Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel:
— Vai, arcanjo meu, desce ao paraíso terrestre, onde vivem Adão e Eva, e
traze-os para a eterna bem-aventurança, que mereceram pela repulsa às
instigações do Tinhoso.
E logo o arcanjo, pondo na cabeça o elmo de diamante, que rutila como
um milhar de sóis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Adão e Eva, e
disse-lhes:
— Salve, Adão e Eva. Vinde comigo para o paraíso, que merecestes pela
repulsa às instigações do Tinhoso.
Um e outro, atônitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obediência;
então Gabriel deu as mãos a ambos, e os três subiram até à estância eterna,
onde miríades de anjos os esperavam, cantando:
— Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue às obras do Tinhoso,
aos animais ferozes e maléficos, às plantas daninhas e peçonhentas, ao ar
impuro, à vida dos pântanos. Reinará nela a serpente que rasteja, babuja e
morde, nenhuma criatura igual a vós porá entre tanta abominação a nota da
esperança e da piedade.
E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras,
que uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da criação...
... Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor
para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para
os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração
enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira
que falou:
— Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que
lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento?
— Lá o saberá o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo.
E o juiz-de-fora, levando à boca uma colher de doce:
— Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor,
se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na
verdade, uma cousa primorosa. É ainda aquela sua antiga doceira de
Itapagipe?

FIM

Fonte
Portal Domínio Público

Poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias


Antônio Gonçalves Dias. Um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como "indianismo", é famoso por ter escrito o poema "Canção do Exílio" — um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira —, o curto poema épico I-Juca-Pirama e muitos outros poemas nacionalistas e patrióticos, além de seu segundo mais conhecido poema chamado: Cancões de Exílio que viriam a dar-lhe o título de poeta nacional do Brasil. (wikipedia)

Canção do Exílio Gonçalves Dias


CANÇÃO DO EXÍLIO
Gonçalves Dias


Kennst du das Land, wo die Citronen blühn,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn,
Kennst du es wohl?
 Dahin, Dahin!
Möcht ich... ziehn!
Goethe

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Convite a Marília, Bocage

Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de setembro de 1765 – Lisboa, Mercês, 21 de dezembro de 1805) foi um poeta nacional português e, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano (Wikipedia).

Convite a Marília, Bocage


Convite a Marília
Bocage


Já se afestou de nós o inverno agreste
Envolto nos seus úmidos vapores;
Afértil primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste:

Varrendo os ares o sutilnordeste
Os torna azuis; as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste:

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza
Destas copadas árvores o abrigo:

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!

Um Apólogo de Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil (Wikipedia)


Um Apólogo de Machado de Assis

Um Apólogo
de Machado de Assis


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importese com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plicplic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Relação das Obras de Machado de Assis

.Confira as principais obras de Machado de Assis. Nesta relação abaixo você encontrará obras como Dom Casmurro, Helena e várias outras. Os principais livros, a biografia do autor, contos, crônicas, poemas, poesias e obras completas de Machado de Assis. Todas as obras estão disponíveis no Portal Domínio Público para baixar em PDF clique no link (título da obra) para acessar o texto.
  • Título
  1. A Cartomante
  2. A Causa Secreta
  3. A chave
  4. A Chinela Turca
  5. A Desejada das Gentes
  6. A idéia do Ezequiel Maia
  7. A Igreja do Diabo
  8. A Inglezinha Barcelos
  9. Almas Agradecidas
  10. A mágoa do Infeliz Cosme
  11. A Mão e a Luva
  12. Americanas
  13. A Mulher de Preto
  14. A mulher Pálida
  15. Anedota do Cabriolet
  16. Anedota Pecuniária
  17. Antes da Missa
  18. Antes da Rocha Tapéia
  19. Antes que Cases
  20. A Parasita Azul
  21. A Pianista
  22. As Academias de Sião
  23. As Bodas de Luís Duarte
  24. A Segunda Vida
  25. A Semana
  26. A Senhora do Galvão
  27. A Sereníssima República
  28. As Forças Caudinas
  29. Astúcias de Marido
  30. A última receita
  31. Aurora sem Dia
  32. A Vida Eterna
  33. A viúva Sobral
  34. Ayres e Vergueiro
  35. Balas de Estalo
  36. Bons Dias
  37. Brincar com fogo
  38. Cantiga de Esponsais
  39. Cantiga velha
  40. Capítulo dos Chapéus
  41. Casada e viúva
  42. Casa, não casa
  43. Casa velha
  44. Caso da Vara
  45. Cinco Mulheres
  46. Como se inventaram os almanaques
  47. Confissões de uma Viúva
  48. Confissões de uma Viúva Moça
  49. Conto Alexandrino
  50. Conto de Escola
  51. Contos Fluminenses
  52. Conversão de um avaro
  53. Correspondência de Machado de Assis
  54. Crisálidas
  55. Críticas Teatrais
  56. Curta história
  57. D. Benedita
  58. Decadência de dois grandes homens
  59. Desencantos
  60. Diana
  61. Dívida Extinta
  62. D. Jucunda
  63. D. Mônica
  64. Dom Casmurro
  65. D. Paula
  66. Duas Juízas
  67. Elogio da vaidade
  68. Encher tempo
  69. Entre 1892 e 1894
  70. Entre duas datas
  71. Entre Santos
  72. Ernesto de Tal
  73. Esaú e Jacó
  74. Eterno!
  75. Evolução
  76. Ex Cathedra
  77. Falenas
  78. Felicidade pelo Casamento
  79. Fernando e Fernanda
  80. Filosofia de um par de botas
  81. Flor anônima
  82. Folha rota
  83. Francisca
  84. Frei Simão
  85. Fulano
  86. Galeria Póstuma
  87. Goivos e Camélias
  88. Habilidoso
  89. Helena
  90. Henriqueta Renan
  91. História comum
  92. História de Quinze Dias
  93. História de uma lágrima
  94. Histórias da Meia-Noite
  95. Histórias sem Data
  96. Hoje Avental, amanhã Luva
  97. Iaiá Garcia
  98. Idéias do Canário
  99. Identidade
  100. João Fernandes
  101. Jogo do Bicho
  102. Lágrimas de Xerxes
  103. Letra vencida
  104. Lição de Botânica
  105. Linha Reta e Linha Curva
  106. Longe dos Olhos
  107. Luís Soares
  108. Luís Soares
  109. Manuscrito de um Sacristão
  110. Marcha Fúnebre
  111. Maria Cora
  112. Mariana
  113. Médico é remédio
  114. Memorial de Aires
  115. Memórias Póstumas de Brás Cubas
  116. Metafísica das Rosas
  117. Miloca
  118. Missa do Galo
  119. Miss Dollar
  120. Miss Dollar
  121. Muitos anos depois
  122. Na Academia Brasileira de Letras
  123. Na Arca
  124. Não consultes Médico
  125. Não é mel para a boca do asno
  126. Nem uma nem outra
  127. Noite de Almirante
  128. Notas Semanais
  129. Notas Semanais
  130. Novas relíquias
  131. O Alienista
  132. O almada
  133. O Anel de Polícrates
  134. O anjo das donzelas
  135. O anjo Rafael
  136. O astrólogo
  137. O Bote de rapé
  138. O califa de platina
  139. O caminho da porta
  140. O caminho de Damasco
  141. O capitão Mendonça
  142. O carro 13
  143. O caso Barreto
  144. O caso da Viúva
  145. O caso do Romualdo
  146. Ocidentais
  147. O Cônego ou Metafísica do Estilo
  148. O contrato
  149. O destinado
  150. O Dicionário
  151. O Diplomático
  152. O Empréstimo
  153. O Enfermeiro
  154. O Enfermeiro
  155. O escrivão Coimbra
  156. O Espelho
  157. O imortal
  158. O Lapso
  159. O machete
  160. O melhor remédio
  161. Onda
  162. Onze anos depois
  163. O Oráculo
  164. O Pai
  165. O País das Quimeras
  166. O Passado, passado
  167. O programa
  168. O Protocolo
  169. O que são as moças
  170. Orai por ele
  171. O Rei dos Caiporas
  172. O Relógio de Ouro
  173. O sainete
  174. Os deuses de casaca
  175. O Segredo de Augusta
  176. O Segredo do Bonzo
  177. Os Óculos de Pedro Antão
  178. O Teles e o Tobias
  179. O Último dia de um poeta
  180. O Velho Senado
  181. Páginas Críticas e Comemorativas
  182. Páginas Recolhidas
  183. Pai Contra Mãe
  184. Papéis Avulsos
  185. Papéis Velhos
  186. Pareceres de Machado de Assis
  187. Pílades e Orestes
  188. Pobre Cardeal!
  189. Pobre Finoca
  190. Poesias dispersas
  191. Polêmicas e reflexões
  192. Ponto de Vista
  193. Ponto de Vista
  194. Possível e Impossível
  195. Primas de Sapucaia
  196. Qual dos dois
  197. Quase ministro
  198. Quem Boa Cama Faz...
  199. Quem conta em conto...
  200. Quem não quer ser lobo...
  201. Questão de vaidade
  202. Quincas Borba
  203. Quinhentos Contos
  204. Relíquias da Casa Velha
  205. Ressureição
  206. Ruy de Leão
  207. Sales
  208. Silvestre
  209. Singular Ocorrência
  210. Suje-Se, Gordo!
  211. Teoria do Medalhão
  212. Terpsícore
  213. Textos críticos
  214. To be or not to be
  215. Três conseqüências
  216. Três tesouros perdidos
  217. Trina e uma
  218. Trio em Lá Menor
  219. Trio em Lá Menor
  220. Troca de datas
  221. Tu, só tu, puro amor
  222. Última receita
  223. Último Capítulo
  224. Uma águia sem asas
  225. Uma carta
  226. Uma excursão milagrosa
  227. Um almoço
  228. Uma loureira
  229. Um ambicioso
  230. Uma noite
  231. Uma ode de anacreonte
  232. Uma partida
  233. Uma por outra
  234. Uma Senhora
  235. Umas Férias
  236. Uma Visita de Alcebíades
  237. Um cão de lata ao rabo
  238. Um Capitão de Voluntários
  239. Um dia de entrudo
  240. Um dístico
  241. Um Erradio
  242. Um esqueleto
  243. Um Homem Célebre
  244. Um homem superior
  245. Um incêndio
  246. Um quarto de século
  247. Um sonho e outro sonho
  248. Uns Braços
  249. Valério
  250. Várias Histórias
  251. Vênus! divina vênus!
  252. Verba Testamentária
  253. Viagem à roda de mim mesmo
  254. Vidros quebrados
  255. Virginius
  256. Viver
  257. Viver!

Fonte:

Obras de Machado de Assis. Portal Domínio Público.  http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp




Principais Obras de Machado de Assis

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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Poema Vida de Flor de Fagundes Varella

Poema Vida de Flor de Fagundes Varella em Vozes da América. Poeta romântico, Fagundes Varella foi um dos maiores expoentes da poesia brasileira, em seu tempo com obras de características marcantes para a literatura brasileira. 

Poema Vida de Flor de Fagundes Varella

VIDA DE FLOR


Por que vergas-me a fronte sobre a terra?
Diz a flor da colina ao manso vento,
Se apenas às manhãs o doce orvalho
Hei gozado um momento?

Tímida ainda, nas folhagens verdes
Abro a corola à quietação das noites,
Ergo-me bela, me rebaixas triste
Com teus feros açoites!

Oh! deixa-me crescer, lançar perfumes,
Vicejar das estrelas à magia,
Que minha vida pálida se encerra
No espaço de um só dia!

Mas o vento agitava sem piedade
A fronte virgem da cheirosa flor,
Que pouco a pouco se tingia, triste,
De mórbido palor.

Não vês, oh brisa? lacerada, murcha,
Tão cedo ainda vou pendendo ao chão,
E em breve tempo esfolharei já morta
Sem chegar ao verão?

Tem piedade de mim! deixa-me ao menos
Desfrutar um momento de prazer,
Pois que é meu fado despontar na aurora
E ao crepúsculo morrer!...

Brutal amante não lhe ouviu as queixas,
Nem às suas dores atenção prestou,
E a flor mimosa, retraindo as pétalas,
Na tige se inclinou.

Surgiu na aurora, não chegou à tarde,
Teve um momento de existência só!
A noite veio, procurou por ela,
Mas a encontrou no pó.

Ouviste, oh virgem, a legenda triste
Da flor do outeiro e seu funesto fim?
Irmã das flores à mulher, às vezes
Também sucede assim.

Fagundes Varella


Poema Canto Heróico de Cláudio Manuel da Costa

Cláudio Manuel da Costa escritor brasileiro que, segundo o site Wikipedia, destacou-se pela sua obra poética e pelo seu envolvimento na Inconfidência Mineira. Foi também advogado de prestígio, fazendeiro abastado, cidadão ilustre, pensador de mente aberta e amigo do Aleijadinho, a quem teria possibilitado o acesso às bibliotecas clandestinas que seriam mais tarde apreendidas aos Inconfidentes

Poema Canto Heróico de Cláudio Manuel da Costa

CANTO HERÓICO


Ao Ilmo. e Exmo. Sr. D. Antônio de Noronha, na ocasião em que os movimentos da Guerra do Sul o obrigaram a marchar para o Rio de janeiro com as tropas de Minas Gerais.
Jam nunc minaci murmure cornuum
Perstringis aures, jam litui strepunt
Jam fulgor armorum fugaces
Terret equos, equitumque vultus.
HORÁCIO. lib. 2, od. 1a.

Marte feroz, que com semblante irado
Influís nos mortais a dura guerra,
Sofre que a teus ouvidos chegue o brado
Da minha aflita, e magoada Terra:
A paz tranqüila e o sereno estado
Do nosso bem por ti já se desterra;
Por ti eu vejo que a discórdia crua
Sacode as serpes da madeixa sua.

2
Busca a ardente fornalha o ferro que antes
De útil arado ao lavrador servia;
Punhais agudos, lanças penetrantes
Levam na mão, que os rege a morte fria:
Ouvem-se as vozes dos clarins vagantes,
Soa da caixa a fúnebre harmonia,
Guerra, guerra, publica o eco horrendo,
Que os montes fere, os vales vai rompendo.

3
Deixa da amada esposa o casto leito
O saudoso pai, que o filho adora,
E do amor e da honra ao vário efeito,
Desperta a um tempo, e ao mesmo tempo chora;
Fugi, mortais, que o palpitante peito
Treme e se gela; a Fama vencedora
De longe vos acena, e vos convida;
Mas de sangue e de pó será tingida.

4
Céus, e como inda anima a idéia infame
Um concelho tão vil? Que influxo impuro
Me arrebata, e me obriga a que vos chame
Ao letargo infeliz de um veio escuro?
A glória ilustre, a glória vos inflame
De sustentar de vossa Pátria o muro,
De ver a vossos pés o orgulho fero,
Com que vos ameaça o ferro ibero.

5
Noronha é que vos guia. Ele na frente
Dos Reais Esquadrões empunha a espada,
Aquela espada que inda fuma quente
Do sangue hispano, em que já foi banhada;
Dos preclaros Avós, quando pendente,
Se viu da Fama na imortal morada;
Ela inspira neste Herói o exemplo,
Que bem desempenhado hoje contemplo.

6
Se buscais da Vitória um fausto agoiro,
Eu vo-lo posso dar: entrai comigo
A registar o Templo; vede o Loiro
De tanto egrégio resplandor antigo;
Aquele respeitável busto de oiro
Guarda o Primeiro Pedro, o Rei amigo;
O Quinto Afonso os seus serviços mede
No Condado feliz de Cantanhede.

7
Derivando-se a rama esclarecida
Dos ilustres, esplêndidos Menezes,
Por um Jorge, um João, e outros que a vida
Perderam entre os bélicos arneses,
Vede no grande Antônio enriquecida
De mil troféus a glória; este que as vezes
Sustenta do Primeiro, em prêmio prova,
Por mão do Rei Felipe, a mercê nova.

8
Passa o título a Antônio, e já respira
Neste Conde imortal a glória rara
Do excelso Marquesado; o Rei admira
Crescer a estirpe majestosa e clara:
De ramo em ramo se dilata e gira
O régio adorno, que a Fortuna ampara;
Grandes são todos, e a maior grandeza
É das virtudes a feliz nobreza.

9
Menezes e Noronhas vêm ligados
Em laço ilustre, e de mil Reis a glória
Se vê reproduzir nestes traslados,
Que os fastos enchem já da Lusa História:
Nas bélicas empresas aprovados,
Oh! e quanto distintos na memória
Eu os encontro, eu os adoro, e vejo,
Se busco o Ganges, se demando o Tejo!

10
África o diga em dessolados rumes?
De frios ossos alvejando as praias;
Digam-no de Ásia aos cortadores gumes,
Rasas no campo, as Legiões cambaias.
Semideuses da terra e dignos Numes
Os viu o Tejo nas frondosas raias;
Em Montes Claros e Elvas inda soa
O clarim, que as vitórias apregoa.

11
Que parte o mundo em seus limites conta,
Que de tantos Heróis não honre, e guarde
As preclaras ações? Febo as apontar
Onde nasce, onde morre, e onde mais arde.
Se a um e a outro hemisfério se remonta
A glória sua, a nós se não retarde
A ventura de vermos neste Estado
Por um Noronha o nosso bem firmado.

12
Antônio, o grande Antônio é quem segura
Das Pátrias Minas o feliz distrito,
Por ele a mão da próvida Ventura
Tem o nosso prazer em bronze escrito:
Dos férteis campos, que talar procura
O soberbo espanhol, eu já medito
Que livres do temor, do pranto enxutos,
Nós passaremos a colher os frutos.

13
Então de palmas a coberta estrada
Aos seus triunfos abrirá caminho,
Mil vivas entoando a Esquadra armada,
Desde o Rio da Prata a Doiro e Minho.
Pender veremos da luzenta espada
Ricos despojos, que o curvado Pinho
Farão gemer; veremos como torna
Cheio de loiros, de que a testa adorna.

14
Parte, valente Herói, parte, e a teu mando
Ajunta um corpo de rendidos peitos,
Que então são dignos de seguir-te, quando
Amam da glória os imortais respeitos;
Teu nome, o vôo sobre a Fama dando,
Passe do mundo os âmbitos estreitos;
E além da meta que o Tebano assina
Firma o brasão da Lusitana Quina.

15
Cândida nuvem desde os Céus desata
A abundância, o prazer, e a alegria;
Sereno o aspecto da Fortuna ingrata,
Longe de nós Remnúsia se desvia.
Não é engano, que a ilusão dilata
Na fecunda, ociosa fantesia;
Eu o vejo, eu o sinto, e já se apressa
A feliz hora, e a estação começa.

16
Correi de leite, e mel, ó pátrios rios,
E abri dos seios o metal guardado;
Os borbotões de prata, e de oiro os fios
Saiam do Luso a enriquecer o estado;
Intratáveis penedos, montes frios,
Deixai ver as entranhas, onde o Fado
Reserva pela mão do Herói mais nobre
Dar ao mundo os tesoiros que inda encobre.

17
Verdes, negros Tritões tecendo a amarra
Prendam no Tejo as carregadas Frotas
Que vêm buscando a Lusitana Terra,
Lá desde o seio das regiões remotas;
O Hispano Leão curvando a garra
Trema de espanto, e nas entranhas rotas
Sinta o furor da macilenta inveja,
Que o rói, e morde, e em devorar forceja.

18
Mas eu, que me dilato ou me detenho
Nas imagens de auspício tão ditoso,
Se a profética luz em desempenho
Transpira já no quadro luminoso?
Já desde o Porto o desatado Lenho?
Ao triunfante Herói recebe ansioso,
Já pouco a pouco o vento, abrindo as velas,
Foge do Pátrio Rio às praias belas.

19
Parte, valente Herói, mas deixa entanto
Que te chore o País deserto e triste!
Quanto é pesada a tua ausência, e quanto
Ela debalde a tanta dor resiste!
Permite ao menos que o saudoso pranto
Te acompanhe e te siga, e se já viste
De ũa muda eloqüência o ardente efeito,
Rende à ternura o resoluto peito.

28
Mas desde o Hebro desatar o Pinho,
Qual fero Jarba a disputar Cartago;
Do parente, do amigo e do vizinho
Tentar o golpe e fulminar o estrago;
Fazer do Elísio ao imortal caminho
Tantas almas de Heróis cruzar o lago
Do frio Lete... ah! que o teu nome eu vejo
Andar aos netos com vergonha, e pejo!

29
Se a impulsos de um furor corre inimigo
Teu braço a provocar-nos, eu te juro
Que vejas renascer o esforço antigo
Que tantas vezes te atacou seguro:
Traze em memória o mísero castigo
Daquele pacto que te achou perjuro,
Vê se os trezentos Fábios inda alenta
A série augusta dos Varões quarenta.

30
Lembre-te que de todo enfraquecido
O Reino estava, e qual Anteu gigante
Com mais forças pulou do chão erguido
A restaurar o cetro vacilante:
Lembre-te que entre os poucos do partido
Nenhum tão digno de que a Fama o cante
Como um Pedro Menezes. Tens presente
No grande Antônio o sucessor valente.


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

3 Poemas Religiosos de Machado de Assis

3 Poemas Religiosos de Machado de Assis.  Segundo site Wikipedia "como poeta, escreveu três poemas correlacionados no que se refere à orações e ao antagonismo entre a Roma antiga, o Paganismo e a Cristandade: "Fé", "O Dilúvio" e "Visão", sendo que os dois primeiros foram publicados em Crisálidas (1864) e o último em Falenas (1870). Alguns especialistas notam nestes três poemas que Machado vangloriava a fé e a grandeza de Deus, mas num sentido mais poético e renascentista que doutrinário ou moralista."




 (1863)
Mueve-me*
 enfin tu amor de tal manera
Que aunque no hubiera cielo yo te amara.
 SANTA THEREZA DE JESUS

As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
 Os cânticos da terra.

 No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira bússola nos seja,
 Senhor, tua palavra.

 A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que há de abrir à estância eterna
 O fulgido caminho.

Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
 Vê quanto vale a terra;

 Quando das glórias frias
Que o tempo dá e o mesmo tempo some,
Despida já, — os olhos moribundos
 Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos lábios,
No coração, na mente põe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
 No seio do infinito.

Machado de Assis
Crisálidas


3 Poemas Religiosos de Machado de Assis


O DILÚVIO1
 ( 1863)
E caiu a chuva sobre a terra
quarenta dias e quarenta noites.
GENESIS: 7, 12


Do sol ao raio esplêndido,
Fecundo, abençoado,
A terra exausta e úmida
Surge, revive já;
Que a morte inteira e rápida
Dos filhos do pecado
Pôs termo à imensa cólera
Do imenso Jeová!

Que mar não foi! que túmidas
As águas não rolavam!
Montanhas e planícies
Tudo tornou-se um mar;
E nesta cena lúgubre
Os gritos que soavam
Era um clamor uníssono
Que a terra ia acabar.

Em vão, ó pai atônito,
Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros,
Em vão tentais fugir!
Que as águas do dilúvio
Crescidas e refeitas,
Vão da planície aos píncaros
Subir, subir, subir!

Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.

Lá vai! Que um vento alígero,
Entre os contrários ventos,
Ao lenho calmo e impávido
Abre caminho além...
Lá vai ! Em torno angústias,
Clamores e lamentos;
Dentro a esperança, os cânticos,
A calma, a paz e o bem.

Cheio de amor, solícito,
O olhar da divindade,
Vela os escapos náufragos
Da imensa aluvião.
Assim, por sobre o túmulo
Da extinta humanidade
Salva-se um berço: o vínculo
Da nova criação.

Íris, da paz o núncio,
O núncio do concerto,
Riso do Eterno em júbilo,
Nuvens do céu rasgou;
E a pomba, a pomba mística,
Voltando ao lenho aberto,
Do arbusto da planície
Um ramo despencou.

Ao sol e às brisas tépidas
Respira a terra um hausto,
Viçam de novo as árvores,
Brota de novo a flor;
E ao som de nossos cânticos,
Ao fumo do holocausto
Desaparece a cólera
Do rosto do Senhor.

Machado de Assis
Crisálidas



Nota do Autor (Machado de Assis)
 E ao som dos nossos cânticos; etc.
Estes versos são postos na boca de uma hebréia. Foram recitados no Ateneu Dramático pela eminente artista D. Gabriela da Cunha, por ocasião da exibição de um quadro do cenógrafo João Caetano,  representando o dilúvio universal. 










VISÃO
A LUIZ DE ALVARENGA PEIXOTO


Vi de um lado o Calvário, e do outro lado
O Capitólio, o templo-cidadela.
E torvo mar entre ambos agitado,
Como se agita o mar numa procela.

Pousou no Capitólio uma águia; vinha
Cansada de voar.
Cheia de sangue as longas asas tinha;
Pousou; quis descansar.

Era a águia romana, a águia de Quirino;
A mesma que, arrancando as chaves ao destino,
As portas do futuro abriu de par em par.
A mesma que, deixando o ninho áspero e rude,
Fez do templo da força o templo da virtude,
E lançou, como emblema, a espada sobre o altar.

Então, como se um deus lhe habitasse as entranhas,
A vitória empolgou, venceu raças estranhas,
Fez de várias nações um só domínio seu.
Era-lhe o grito agudo um tremendo rebate.
Se caía, perdendo acaso um só combate,
Punha as asas no chão e remontava Anteu.

Vezes três, respirando a morte, o sangue, o estrago,
Saiu, lutou, caiu, ergueu-se...e jaz Cartago;
É ruína; é memória; é túmulo. Transpõe,
Impetuosa e audaz, os vales e as montanhas.
Lança a férrea cadeia ao colo das Espanhas.
Gália vence; e o grilhão a toda Itália põe.

Terras da Ásia invadiu, águas bebeu do Eufrates,
Nem tu mesma fugiste à sorte dos combates,
Grécia, mãe do saber. Mas que pode o opressor,
Quando o gênio sorriu no berço de uma serva?
Palas despe a couraça e veste de Minerva;
Faz-se mestra a cativa; abre escola ao senhor.

Agora, já cansada e respirando a custo,
Desce; vem repousar no monumento augusto.
Gotejam-lhe inda sangue as asas colossais.
A sombra do terror assoma-lhe à pupila.
Vem tocada das mãos de César e de Sila.
Vê quebrar-se-lhe a força aos vínculos mortais.

Dum lado e de outro lado, azulam-se
Os vastos horizontes;
Vida ressurge esplêndida
Por toda a criação.
Luz nova, luz magnífica
Os vales enche e os montes...
E além, sobre o Calvário,
Que assombro! que visão!

Fitei o olhar. Do píncaro
Da colossal montanha
Surge uma pomba, e plácida
Asas no espaço abriu.
Os ares rompe, embebe-se
No éter de luz estranha:
Olha-a minha alma atônita
Dos céus a que subiu.

Emblema audaz e lúgubre
Da força e do combate,
A águia no Capitólio
As asas abateu.
Mas voa a pomba, símbolo
Do amor e do resgate,
Santo e apertado vínculo
Que a terra prende ao céu.

Depois... Às mãos de bárbaros,
Na terra em que nascera,
Após sangrentos séculos,
A águia expirou; e então
Desceu a pomba cândida
Que marca a nova era,
Pousou no Capitólio,
Já berço, já cristão.

Machado de Assis, Falenas



Fontes
MACHADO DE ASSIS. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Machado_de_Assis&oldid=52898296>. Acesso em: 13 ago. 2018.

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