segunda-feira, 17 de setembro de 2018

3 mortes cruéis na literatura clássica

A literatura como arte é uma expressão da cultura brasileira. Nesta postagem confira os trechos de mortes cruéis relatadas por autores da literatura nacional. Características marcantes de cada personagem nesses eventos atordoantes importantes para o conceito de morte na literatura. Confira!


3 mortes cruéis na literatura clássica



1. Assassinato de Marramaque em Clara dos Anjos


CLARA DOS ANJOS
Lima Barreto
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2060


O que havia, era simples: Cassi premeditava simplesmente, friamente, cruelmente, o assassinato de Marramaque. Quando ele falou a respeito a Arnaldo, limitou-se a dizer: "Vamos darlhe uma surra." "Por quê?" perguntou o outro. Ele respondeu: "Esse velho está abusando de ser aleijado, para me insultar. Merece uma surra." Não iam sová-lo, sabiam os dois desalmados; iam matá-lo...
 Era sábado, dia em que Marramaque se demorava mais na venda do "Seu" Nascimento.
Chovia e a noite viera logo fechada e escura. Grossas nuvens negras pairavam baixo. As luzernas de gás, tangidas pelo vento, mal iluminavam aquelas torvas ruas dos subúrbios, cheias de árvores  aos lados e moitas intrincadas de arbustos. Marramaque, vindo da repartição, deixara-se ficar até às oito, na venda. Por essa hora, despediu-se e tomou o caminho de casa. Para se ir ter a ela, por ali, preconiza-se, entre outras, uma rua já quase completamente edificada, que terminava numa ladeira deserta. De um lado, o esquerdo, havia um terreno baldio, cheio de moitas altas; do direito, grandes árvores dos fundos de uma chácara, cuja frente era na rua paralela. Além de deserto, esse trecho era por demais sombrio, sobretudo em noites como aquela. 




2. Assassinato de dois meninos por Cabeleira.



O CABELEIRA 
Franklin Távora
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000061.pdf

— Que diabo tens tu, Teodósio?
— O dinheiro, Cabeleira, o dinheiro!
E o pardo, com o semblante desfigurado por uma dor profunda, apontou o rio que
suavemente discorria por entre o deserto, mobilizando as águas azuladas em que se refletia o belo
céu pernambucano que disputa a primazia ao céu de Itália.
— O dinheiro que tirei das gavetas do armazém lá se foi no camarote da canoa! disse o
Teodósio, fulo de pesar que se não descreve.
— E que fim levou ela? interrogou José.
— Fugiu, desapareceu! Lá se foi tudo pela água abaixo. 
Não acabava quando, ei-la que aponta movida por dois meninos que, tendo ido encher os
potes no rio, se haviam apoderado dela para brincarem como costumavam sempre que davam
com alguma canoa sem dono. Pobres crianças!
Tanto que os viu, Teodósio empalideceu. Cabeleira porém correu a encontrá-los aceso em
ira, gritando e ralhando como louco. Amedrontados, saltaram na margem os pobrezinhos, e
fugiram, ao passo que a canoa, ficando solta, desaparecia novamente impelida pela enchente da
maré.
Fazendo conta José que os meninos se haviam assenhoreado do dinheiro, continuou a correr
no encalço deles sem ter outra idéia que apanhá-los para arrancar-lhes das mãos o que
considerava propriedade sua. Mas como sua cólera aumentou com a fugitiva resistência dos
pequenos, atirou ele sobre o primeiro que lhe ficou ao alcance o facão com tanta certeza, que o
pobrezinho, cravado pelas costas, caiu banhado em seu próprio sangue.
Não parou aí então a fereza inaudita. José, achando limpas as mãos da vítima, lançou-se com
encarniçada fúria atrás do camarada, o qual, tendo já ganho grande distância, e sentindo que era
perseguido tenazmente, se lembrou de trepar no primeiro coqueiro que descobriu com os olhos
pávidos, crendo escapar por este modo ao terrível assassino. Reconheceu, porém, que se havia
enganado, quando deu com as vistas em José que do chão diligenciava feri-lo com o facão.
— Acuda, mamãe, que o homem me quer matar — gritou o menino das alturas aonde havia
subido.
— Ah, tu pões a boca no mundo, caiporinha? observou José. Pois vou tirar-te a fala em um
instante.
Um tiro covarde, cruel, assassino atroou os ares. Sangue copioso e quente gotejou como
granizo sobre a areia e no mesmo instante o corpo do inocentinho, crivado de bala e chumbo,
caindo aos pés de Cabeleira, veio dar-lhe novo testemunho de sua perícia na arte de atirar contra
seu semelhante.

mortes na literatura
By Pixabay


3. O Satanás em o Esqueleto.


O ESQUELETO
Aluísio Azevedo

O SATANÁS

Tinha uma bela compostura varonil e forte de velho conservado aquele desconhecido que tão inopinadamente acabava de entrar na bodega do Trancoso e em torno do qual todos respeitosamente se acercavam.

Por sobre o chapéu de abas largas, via-se um rosto bem modelado em ângulos violentos de decisão e afoiteza O espesso e comprido bigode militar, que o sarro dos cachimbos amarelecera, recurvava-se fantasticamente numas pontas erguidas para o céu como uma ameaça de conos de Satanás. O nariz e o queixo eram pontiagudos, fazendo-lhe a cara estreita e cortante como a cabeça dos peixes, e a quilha dos navios. E ele tinha, principalmente, um olhar, indefinível de cor, agudo e penetrante como a lâmina daquela espada que atirara sobre o balcão, olhar de rapina, de águia nobre ou abutre carniceiro. Não se lhe podia ver o traje, envolto como trazia o corpo numa vasta capa espanhola de forro escarlate Divisava-se-lhe apenas as largas botas de couro, muito elameadas e com esporas de grandes rosetas.

E aí, à luz baça dos candieiros, recostado por sobre uma mesa, ele quedava-se, indiferente com a preocupação dos outros, tipo fantástico de aventuras a quem pouco importavam a luta de ainda havia pouco, e a perspectiva toda da vida restante.

Chamavam-no Satanás e tinha a sua história.

De origem fiorentina e boas fidalguias, ele crescera logo numa infância cheia de tempestades.
Na noite do seu nascimento, uma vingança italiana ateara o incêndio no palácio dos Pallingrini, e somente a um mi]agre se deveu a sua salvação. O pai, que o trouxera ao colo descendo pela escada abrasada, entregou-o a um criado. E pereceu dentro das chamas quando tentou voltar para salvar a mulher. Um frade mendicante que passava batizou-o então com o nome de Ângelo; e uma bruxa cigana, que dizia a buena dicha vaticinou-lhe mil horrores: uma inconstância de sorte fazendo-o milionário de repente e mendigo logo depois, e enfim uma morte violenta e uma sepultura fora do sagrado.

Ângelo Pallingrini, o pobre órfão da triste catástrofe, foi conduzido então para um castelo da Calábria, onde seu tio e tutor o confiou aos cuidados de uma ama, e o deixou crescer por ali, ao azar das circunstâncias, como bem parecia à criança e como bem entendiam os criados. O menino fez-se logo trêfego, autoritário e mau. Gostava de subir ao terraço da grande torre do castelo para precipitar os animais que conseguia apanhar. E de uma ocasião, aos sete anos, passou duas semanas na enxovia, porque, brincando armas com seu irmão colaço, matou-o para experimentar como eram as brigas de verdade. Adolescente, sonhou logo amores. Queriaos, porém, misteriosos e complicados, difíceis e românticos, como os contavam nas lúgubres legendas do papado que a gente do castelo gostava de repetir pelas horas tristes da noite, na monotonia fatigante dos serões. E apaixonou-se pela tia - uma bela mulher, vigorosa e forte que vivia a exuberância dos seus trinta anos junto à precoce decrepitude do marido.

Mas quando uma noite, entrava-lhe nos aposentos, encontrou-a morta sobre o assoalho, esplendidamente nua, com os bastos cabelos em desalinho e um lençol apenas envolvendo-lhe parte do corpo, deixando-lhe a descoberto os seios por entre os quais se afincava o punhal assassino.

Junto ao cadáver, sereno e pálido, o castelão velava de pé com as mãos nos copos da espada - sentinela da honra no campo da morte.

Ângelo Pallingrini soltou então pela primeira vez aquela gargalhada estentórica de ferros velhos que chocalham como as armaduras dos guerreiros dentro das campas, aquela gargalhada que lhe deu mais tarde o cognome de Satanás.

E antes que o tio se movesse, ele arrancou do peito da morta esse punhal com que a covardia de um marido tinha vitimado a sua amante, e investiu contra o velho fidalgo, que rodou no chão soltando uma praga de maldições.

O rapaz fugiu. Embarcou numa galera que partia para as Espanhas. Uma triste fatalidade pesava-lhe, entretanto, sobre o destino todo inteiro. Tanto que nas alturas de Argel a galera foi aprisionada pelos piratas mouriscos.


Assim foram os relatos da morte na literatura.

Fonte
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