quarta-feira, 19 de setembro de 2018

3 Poemas Religiosos de Machado de Assis

3 Poemas Religiosos de Machado de Assis.  Segundo site Wikipedia "como poeta, escreveu três poemas correlacionados no que se refere à orações e ao antagonismo entre a Roma antiga, o Paganismo e a Cristandade: "Fé", "O Dilúvio" e "Visão", sendo que os dois primeiros foram publicados em Crisálidas (1864) e o último em Falenas (1870). Alguns especialistas notam nestes três poemas que Machado vangloriava a fé e a grandeza de Deus, mas num sentido mais poético e renascentista que doutrinário ou moralista."




 (1863)
Mueve-me*
 enfin tu amor de tal manera
Que aunque no hubiera cielo yo te amara.
 SANTA THEREZA DE JESUS

As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
 Os cânticos da terra.

 No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira bússola nos seja,
 Senhor, tua palavra.

 A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que há de abrir à estância eterna
 O fulgido caminho.

Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
 Vê quanto vale a terra;

 Quando das glórias frias
Que o tempo dá e o mesmo tempo some,
Despida já, — os olhos moribundos
 Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos lábios,
No coração, na mente põe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
 No seio do infinito.

Machado de Assis
Crisálidas


3 Poemas Religiosos de Machado de Assis


O DILÚVIO1
 ( 1863)
E caiu a chuva sobre a terra
quarenta dias e quarenta noites.
GENESIS: 7, 12


Do sol ao raio esplêndido,
Fecundo, abençoado,
A terra exausta e úmida
Surge, revive já;
Que a morte inteira e rápida
Dos filhos do pecado
Pôs termo à imensa cólera
Do imenso Jeová!

Que mar não foi! que túmidas
As águas não rolavam!
Montanhas e planícies
Tudo tornou-se um mar;
E nesta cena lúgubre
Os gritos que soavam
Era um clamor uníssono
Que a terra ia acabar.

Em vão, ó pai atônito,
Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros,
Em vão tentais fugir!
Que as águas do dilúvio
Crescidas e refeitas,
Vão da planície aos píncaros
Subir, subir, subir!

Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.

Lá vai! Que um vento alígero,
Entre os contrários ventos,
Ao lenho calmo e impávido
Abre caminho além...
Lá vai ! Em torno angústias,
Clamores e lamentos;
Dentro a esperança, os cânticos,
A calma, a paz e o bem.

Cheio de amor, solícito,
O olhar da divindade,
Vela os escapos náufragos
Da imensa aluvião.
Assim, por sobre o túmulo
Da extinta humanidade
Salva-se um berço: o vínculo
Da nova criação.

Íris, da paz o núncio,
O núncio do concerto,
Riso do Eterno em júbilo,
Nuvens do céu rasgou;
E a pomba, a pomba mística,
Voltando ao lenho aberto,
Do arbusto da planície
Um ramo despencou.

Ao sol e às brisas tépidas
Respira a terra um hausto,
Viçam de novo as árvores,
Brota de novo a flor;
E ao som de nossos cânticos,
Ao fumo do holocausto
Desaparece a cólera
Do rosto do Senhor.

Machado de Assis
Crisálidas



Nota do Autor (Machado de Assis)
 E ao som dos nossos cânticos; etc.
Estes versos são postos na boca de uma hebréia. Foram recitados no Ateneu Dramático pela eminente artista D. Gabriela da Cunha, por ocasião da exibição de um quadro do cenógrafo João Caetano,  representando o dilúvio universal. 











VISÃO
A LUIZ DE ALVARENGA PEIXOTO


Vi de um lado o Calvário, e do outro lado
O Capitólio, o templo-cidadela.
E torvo mar entre ambos agitado,
Como se agita o mar numa procela.

Pousou no Capitólio uma águia; vinha
Cansada de voar.
Cheia de sangue as longas asas tinha;
Pousou; quis descansar.

Era a águia romana, a águia de Quirino;
A mesma que, arrancando as chaves ao destino,
As portas do futuro abriu de par em par.
A mesma que, deixando o ninho áspero e rude,
Fez do templo da força o templo da virtude,
E lançou, como emblema, a espada sobre o altar.

Então, como se um deus lhe habitasse as entranhas,
A vitória empolgou, venceu raças estranhas,
Fez de várias nações um só domínio seu.
Era-lhe o grito agudo um tremendo rebate.
Se caía, perdendo acaso um só combate,
Punha as asas no chão e remontava Anteu.

Vezes três, respirando a morte, o sangue, o estrago,
Saiu, lutou, caiu, ergueu-se...e jaz Cartago;
É ruína; é memória; é túmulo. Transpõe,
Impetuosa e audaz, os vales e as montanhas.
Lança a férrea cadeia ao colo das Espanhas.
Gália vence; e o grilhão a toda Itália põe.

Terras da Ásia invadiu, águas bebeu do Eufrates,
Nem tu mesma fugiste à sorte dos combates,
Grécia, mãe do saber. Mas que pode o opressor,
Quando o gênio sorriu no berço de uma serva?
Palas despe a couraça e veste de Minerva;
Faz-se mestra a cativa; abre escola ao senhor.

Agora, já cansada e respirando a custo,
Desce; vem repousar no monumento augusto.
Gotejam-lhe inda sangue as asas colossais.
A sombra do terror assoma-lhe à pupila.
Vem tocada das mãos de César e de Sila.
Vê quebrar-se-lhe a força aos vínculos mortais.

Dum lado e de outro lado, azulam-se
Os vastos horizontes;
Vida ressurge esplêndida
Por toda a criação.
Luz nova, luz magnífica
Os vales enche e os montes...
E além, sobre o Calvário,
Que assombro! que visão!

Fitei o olhar. Do píncaro
Da colossal montanha
Surge uma pomba, e plácida
Asas no espaço abriu.
Os ares rompe, embebe-se
No éter de luz estranha:
Olha-a minha alma atônita
Dos céus a que subiu.

Emblema audaz e lúgubre
Da força e do combate,
A águia no Capitólio
As asas abateu.
Mas voa a pomba, símbolo
Do amor e do resgate,
Santo e apertado vínculo
Que a terra prende ao céu.

Depois... Às mãos de bárbaros,
Na terra em que nascera,
Após sangrentos séculos,
A águia expirou; e então
Desceu a pomba cândida
Que marca a nova era,
Pousou no Capitólio,
Já berço, já cristão.

Machado de Assis, Falenas


Fontes
MACHADO DE ASSIS. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2018. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Machado_de_Assis&oldid=52898296>. Acesso em: 13 ago. 2018.

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