terça-feira, 18 de setembro de 2018

7 Sonetos de Augusto dos Anjos em Eu e Outras Poesias

Augusto dos Anjos, precoce poeta brasileiro, compôs os primeiros versos aos sete anos de idade e faleceu aos trinta anos, segundo a Wikipedia. Autor com, embora poucas, obras com características relevantes para a literatura brasileira, com poemas e frases peculiares. Nesta postagem trouxemos alguns exemplos de sonetos de Augusto dos Anjos, de amor e outros tipos de temas.


7 Sonetos de Augusto dos Anjos em Eu e Outras Poesias

SONETO


No meu peito arde em chamas abrasada
A pira da vingança reprimida,
E em centelhas de raiva ensurdecida
A vingança suprema e concentrada

E espuma e ruge a cólera entranhada,
Como no mar a vaga embravecida
Vai bater-se na rocha empedernida,
Espumando e rugindo em marulhada

Mas se das minhas dores ao calvário,
Eu subo na altitude dolorida
De um Cristo a redimir um mundo vário,

Em luta co’a natura sempiterna,
Já que do mundo não vinguei-me em vida,
A morte me será vingança eterna.



SONETO

Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior
pelas nove primaveras que hoje completou.

Canta no espaço a passarada e canta
Dentro do peito o coração contente,
Tu’alma ri-se descuidosamente,
Minh’alma alegre no teu rir s’encanta.

Irmão querido, bom Pap[a, consente
Que neste dia de ventura tanta
Vá, num abraço de ternura santa,
Mostrar-te o afeto que meu peito sente.

Somente assim festejarei teus anos;
Enquanto outros podem, dão-te enganos,
Jóias, bonecos de formoso busto,

Eu só encontro no primor da rima
A justa oferta, a jóia que te exprima
O amor fraterno do teu mano.

7 Sonetos de Augusto dos Anjos em Eu e Outras Poesias

SONETO


Aurora morta, foge! Eu busco a virgem loura
Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte
E Ela era a minha estrela, o meu único Norte,
O grande Sol de afeto -- o Sol que as almas doura!

Fugiu... E em si levou a Luz consoladora
Do amor -- esse clarão eterno d’alma forte --
Astro da minha Paz, Sírius da minha Sorte
E da Noite da vida a Vênus redentora.

Agora, oh! minha Mágoa, agita as tuas asas,
Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas
E, num pálio auroral de Luz deslumbradora,

Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro,
Dia do meu Passado! Irrompe, meu Futuro;
Aurora morta, foge -- eu busco a virgem loura!


SONETO


Canta teu riso esplêndido sonata,
E há, no teu riso de anjos encantados,
Como que um doce tilintar de prata
E a vibração de mil cristais quebrados.

Bendito o riso assim que se desata
-- Cítara suave dos apaixonados,
Sonorizando os sonhos já passados,
Cantando sempre em trínula volata!

Aurora ideal dos dias meus risonhos,
Quando, úmido de beijos em ressábios
Teu riso esponta, despertando sonhos...

Ah! Num delíquio de ventura louca,
Vai-se minh’alma toda nos teus beijos,
Ri-se o meu coração na tua boca!


SONETO


Senhora, eu trajo o luto do Passado,
Este luto sem fim que é o meu Calvário
E ansio e choro, delirante e vário,
Sonâmbulo da dor angustiado.

Quantas venturas que me acalentaram!
Meu peito túm’lo do prazer finado
Foi outrora do riso abençoado,
O berço onde as venturas se embalaram.

Mas não queiras saber nunca risonha
O mistério d’um peito que estertora
E o segredo d’um’alma que não sonha!

Não, não busques saber porque, Senhora,
É minha sina perenal, tristonha
-- Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.


SONETO


A praça estava cheia. O condenado
Transpunha nobremente o cadafalso,
Puro de crime, isento de pecado,
Vítima augusta de indelével falso.

E na atitude do Crucificado,
O olhar azul pregado n’amplidão,
Pude rever naquele desgraçado
O drama lutuoso da Paixão.

Quando do algoz cruento o braço alçado
Se dispunha a vibrar sem compaixão
O golpe na cabeça do culpado

Ele, o algoz -- o criminoso -- então,
Caiu na praça como fulminado
A soluçar: perdão, perdão, perdão!



SONETO


O sonho, a crença e o amor, sendo a risonha
Santíssima Trindade da Ventura
Pode ser venturosa a criatura
Que não crê, que não ama e que não sonha?!

Pois a alma acostumada a ser tristonha
Pode achar por acaso ou porventura
Felicidade numa sepultura,
Contentamento numa dor medonha?!

Há muito tempo, o sonho, do meu seio
Partiu num célere arrebatamento
De minha crença arrebentando a grade

Pois se eu não amo e se também não creio
De onde me vem este contentamento,
De onde me vem esta felicidade?!


Textos do poeta já foram exigidos em questões de provas de vestibular e ENEM, sendo importante seu estudo no Ensino Médio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Top
Sobre | Termos de Uso | Política de Cookies | Política de Privacidade