quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Ama Seca de Artur Azevedo.

Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo (São Luís, 7 de julho de 1855 — Rio de Janeiro, 22 de outubro de 1908) foi um dramaturgo, poeta, contista e jornalista brasileiro (Wikipedia). 

A Ama Seca de Artur de Azevedo

A AMA-SECAArtur Azevedo


O Romualdo, marido de D. Eufêmia, era um rapaz sério, lá isso era, e tão
incapaz de cometer a mais leve infidelidade conjugal como de roubar o sino de
São Francisco de Paula; mas - vejam como o diabo as arma! Um dia D.
Eufêmia foi chamada, a toda a pressa, a Juiz de Fora, para ver o pai que
estava gravemente enfermo, e como o Romualdo não podia naquela ocasião
deixar a casa comercial de que era guarda-livros (estavam a dar balanço),
resignou-se a ver partir a senhora acompanhada pelos três meninos, o Zeca, o
Cazuza, o Bibi, e a ama-seca deste último, que era ainda de colo.

Foi a primeira vez que o Romualdo se separou da família. Custou-lhe muito,
coitado, e mais lhe custou quando, ao cabo de uma semana, D. Eufêmia lhe
escreveu, dizendo que o velho estava livre de perigo, mas a convalescença
seria longa, e o seu dever de filha era ficar junto dele um mês pelo menos.

O Romualdo resignou-se. Que remédio!...

Durante os primeiros tempos saía do escritório e metia-se em casa, mas no
fim de alguns dias entendeu que devia dar alguns passeios pelos arrabaldes,
hoje este, amanhã aquele. Era um meio, como outro qualquer, de iludir a
saudade.

Uma noite coube a vez ao Andaraí Grande. O Romualdo tomou o bonde do
Leopoldo, e teve a fortuna ou a desgraça de se sentar ao lado da mulatinha
mais dengosa e bonita que ainda tentou um marido, cuja mulher estivesse em
Juiz de Fora.

Nessa noite fatal a virtude do Romualdo deu em pantanas: tencionando ele ir
até o fim da linha, como fazia todas as noites, apeou-se na Rua Mariz e
Barros, ali pelas alturas da Travessa de São Salvador. A mulata havia se
apeado algumas braças antes.

E ele viu, à luz de um lampião, o vulto dela saltitante e esquivo, e apressou o
passo para apanhá-la, o que conseguiu facilmente, porque, pelos modos, ela
já contava com isso.

- Boa noite!

- Boa noite.

- Como se chama?

- Antonieta.

- Pode dar-me uma palavra?

- Por que não falou no bonde?

- Era impossível... estava tanta gente... e estes elétricos são tão iluminados.

- Mas o sinhô bolinou que não foi graça! vamos, diga: que deseja?

- Desejo saber onde mora.

- Não tenho casa minha; tou empregada numa famia ali mais adiente, por siná
que não stou satisfeita, e ando procurando outra arrumação.

- Onde poderemos falar em particular?
- Não sei.

- Você sai amanhã à noite?

- Amanhã não, porque saí hoje, e não quero abusá.

- Então, depois de amanhã?

- Pois sim.

- Onde a espero?

- Onde o sinhô quisé.

- Na Praça Tiradentes, no ponto dos bondes. As oito horas.

- Na porta do armazém do Derby?

- Isso!

- Tá dito! Inté depois d'amanhã às oito hora.

- Não falte!

- Não farto não!

No dia seguinte, o Romualdo contou a sua aventura a um companheiro de
escritório que era useiro e vezeiro nessas cavalarias... baixas, e o camarada
levou a condescendência ao ponto de confiar-lhe a chave de um ninho que
tinha preparado adrede para os contrabandos do amor.

Antonieta foi pontual; à hora marcada lá estava à porta do Derby, com ares de
quem esperava o bonde.

O Romualdo aproximou-se, fez um sinal, afastou-se e ela seguiu-o...

Dez dias depois, estava ele arrependidíssimo da sua conquista fácil, e com
remorsos de haver enganado D. Eufêmia, aquela santa! Procurava agora
meios e modos de se ver livre da mulata, cuja prosódia era capaz de lançar
água na fervura da mais violenta paixão.

Vendo que não podia evitá-la, tomou o Romualdo a deliberação de fugir-lhe, e
uma noite deixou-a à porta do ninho, esperando debalde por ele. Lembrou-se,
mas era tarde, que havia prometido dar-lhe uni anel, justamente nessa noite.

- Diabo! pensou ele, Antonieta vai supor que lhe fugi por causa do anel!

Voltou, afinal, D. Eufêmia de Juiz de Fora. Veio no trem da manhã,
inesperadamente, e já não encontrou o marido em casa.
Estava furiosa, porque a ama-seca de Bibi deixara-se ficar na estação da
Barra. Podia ser que não fosse de propósito. O mais certo, porém, era o ter
sido desencaminhada por um sujeito que vinha no trem a namorá-la desde
Paraíbuna.

Quando D. Eufêmia contou isso ao marido, acrescentou indignada:

- Que homens sem-vergonha!... Não podem ver uma mulata!...

O Romualdo perturbou-se, mas disfarçou, perguntando:

- E agora? E preciso anunciar! Não podemos ficar sem ama-seca!

- Já mandei o Zeca pôr um anúncio no Jornal do Brasil.

No dia seguinte, o Romualdo saiu muito cedo; ao voltar para casa, a primeira
coisa que perguntou à senhora foi:

- Então? Já temos ama-seca?. .

- Já; é uma mulatinha bem jeitosa, mas tem cara de sapeca. Chama-se
Antonieta.

- Hem? Antonieta?

- Que tens, homem?

- Nada; não tenho nada... E jeitosa?... Tem cara de sapeca?... Manda-a
embora! Não serve! Nem quero vê-la!...

- Ora essa! Por quê? Olha, ela aí vem.

Antonieta chegou, efetivamente, com o Bibi ao colo; mas o Romualdo tinha
fechado os olhos, dizendo consigo:

- Que escândalo!... rebenta a bomba!... este diabo vai reclamar o anel!.

Mas como nada ouvisse, o mísero abriu os olhos e - oh! milagre! - era outra
Antonieta!.

Ele pensou, os leitores também pensaram que fosse a mesma; não era.

Decididamente, há um Deus para os maridos que enganam as suas mulheres.



Fonte: Portal Domínio Público

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Top
Sobre | Termos de Uso | Política de Cookies | Política de Privacidade