segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Poema - A Flor do Amor, de Gonçalves Dias

Poema - A Flor do Amor, de Gonçalves Dias. Um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como "indianismo", é famoso por ter escrito o poema "Canção do Exílio" — um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira (Wikipedia)

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Poema - A Flor do Amor, de Gonçalves Dias


A FLOR DO AMOR


já lento o passo, no cair da tarde,
Lá nos desertos d’abrasada areia,
Que o vento agita, porém não recreia,
da caravana o condutor parou.
Armam-se à pressa tendas alvejante,
Rumina plácido o frugal camelo;
Porém a nuvem d’árabes errantes
Se achega à presa, que de longe olhou.

E já, tomada a refeição noturna,
Junto a fogueira, que derrama vida,
Descansam todos da penosa lida
À voz canora, que o cantor alçou!
Confuso o ouvido um burburinho alcança,
As armas toma o árabe prudente;
Mas logo pensa, rejeitando a lança:
“Foi o grunhido que o chacal soltou.”

Ouvidos todo e curioso enlevo,
torna de novo a retomar seu posto;
Pela fogueira alumiado o rosto,
Bebendo as vozes que o cantor soltou;
Simelha a terra, quando aberta em fendas
Da noite o orvalho sequiosa espera;
E o corcel árabe encostado às tendas
Os sons lhe escuta, e de os ouvir folgou.

“Algures cresce (o trovador cantava)
Sempre fresca e virente e sempre bela,
Por influxo e poder de maga estrela,
Mimosa, pura e delicada flor!
Jazendo em sítio escuso e solitário,
Esforços é mister p’ra conhece-la,
Que diz a forte lei do seu fadário
Que a não descubra acaso o viajor. 

“Alva do albor dos lírios odorosos,
Tem a modéstia da violeta esquiva,
e o pronto retrair da sensitiva,
Que parece vestir-se de pudor!
Assim, à luz da cambiante aurora,
Mudando um poço a resplendente alvura,
De uns toque de carmim s’esmalta e cora
A graciosa e pudibunda flor.

“Faz-me mais puro o ar, mais brando o clima,
Onde cresce; amenizam-se os lugares,
Tornam-se menos agros os pesares
E menos viva, e quase nula a dor;
Fresca e branda alcatifa o chão matiza,
Com doce murmúrio as aguas correm,
e o leve sopro do correr da brisa
Volúpia embebe em mágico frescor!

“Feliz aquele que a encontrou na vida,
Que onde ela nasce tímida e fagueira
Não s’enovela a mó d’atra poeira,
Tangida pelo simum abrasador!
Ali sorri-se oásis venturoso,
Qu’entre deleites o viver matiza,
E ao que vai triste, aflito e sem repouso
Chama a descanso de comprido error!

“Feliz e mais que se, perdido, achara
Conforto e auxilio no catá, seu guia,
Que o leva a fonte perenal e fria
Onde se apaga o sitibundo ardor.
Tão feliz, qual talvez se o precedesse
Que por fanal noturno lhe acendesse
Maga estrela de límpido fulgor.

“Ai! porém do que a vê, e a não conhece,
Do que a suspira em vão, e a em vão procura,
Ou que achando-a, desiste da ventura
Por não entrar no oásis sedutor.
Essa flor descoberta por acerto
Nunca mais a verás! colhe, insensato,
Colhe abrolhos da vida no deserto;
Pois desprezaste a que produz o amor!”

Assim cantava o trovador; e todos
Ouvem-no com prazer de dor travado,
Que mais do que um talvez terá deixado
Atrás de si a pudibunda flor!
No entanto a nuvem d’árabes errantes
Chega-se à presa, que avistou de longe;
E dos corcéis, que alentam ofegante,
Precede a marcha túrbido pavor!

E, nado o sol, aquele que passava
Pelos desertos d’abrasada areia,
Que o rubro sangue de cruor roxeia,
A um lado o rosto pálido, voltou!
Ninguém as mortes lastimáveis chora,
Ninguém recolhe os restos insepultos,
E o mesmo orvalho, que goteja a aurora,
Sem borrifa-los, no areal ficou

Quem saberá do seu destino agora?
Ninguém! Somente em climas apartados
Miseranda mulher lastima os fados
De filho ou esposo, que jamais tornou!
Talvez porém, trás de montões d’areia,
Nobre corcel sem cavaleiro assoma,
E alonga avista, de pesares cheia,
Te onde a vida seu senhor deixou! 

Gonçalves Dias

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