segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Napoleão - Fagundes Varella

Fagundes Varella (São João Marcos, 17 de agosto de 1841 — Niterói, 18 de fevereiro de 1875) foi um poeta romantista brasileiro da 2ª Geração, patrono na Academia Brasileira de Letras. Leia também do autor:  Poema - Não te esqueças de mim


Napoleão Fagundes Varella



NAPOLEÃO


Sobre uma ilha isolada,
Por negros mares banhada,
Vive uma sombra exilada,
De prantos lavando o chão;
E esta sombra dolorida,
No frio manto envolvida,
Repete com voz sumida:
— Eu inda sou Napoleão.

Tremem convulsas as plagas
Bravias lutam as vagas,
Solta o vento horríveis pragas
Nos cendais da escuridão;
Mas nas torvas penedias
Entre fundas agonias,
Ela diz às ventanias:
— Eu inda sou Napoleão.

— E serei! do céu da glória,
Nem dos bronzes da memória,
Nem das páginas da história
Meus feitos se apagarão;
Passe a noite e as tempestades,
Venham remotas idades,
Caiam povos e cidades,
— Sempre serei Napoleão.

Da coluna de Vendôme,
O bronze, o tempo consome,
Porém não apaga o nome
Que tem por bronze a amplidão.
Apesar de infausto dia,
Da infâmia que tripudia,
Dos bretães a cobardia,
— Sempre serei Napoleão.

Nos vastos plainos do Egito,
Sobre Titãs de granito,
Eu tenho um poema escrito
Que deslumbra a solidão.
Das Ísis rasguei os véus,
Entre os altares fui deus,
Fiz povos escravos meus,
— Ah! inda sou Napoleão.

Desde onde o crescente brilha
Até onde o Sena trilha,
Tive o mundo por partilha
Tive imensa adoração;
E de um trono de fulgores
Fiz dos grandes — servidores,
Fiz dos pequenos — senhores,
— E sempre fui Napoleão.

Quando eu cortava os desertos,
Vinham-me os ventos incertos
De incenso e mirra cobertos
Lamber-me as plantas no chão;
As caravanas paravam,
E os romeiros que passavam
Às solidões perguntavam:
— É este o deus Napoleão?

E lá nas plagas fagueiras,
Onde as brisas forasteiras,
Entre selvas de palmeiras
Corre o sagrado Jordão,
O lago dizia ao prado,
O prado ao monte elevado,
O monte ao céu estrelado:
— Vistes passar Napoleão!

Dizei, auras do Ocidente,
Dizei, tufão inda quente
Do bafejo incandescente
Do não vencido esquadrão,
Como é ele? é belo, ousado?
Tem o rosto iluminado?
Tem o braço denodado?
— Sempre é grande Napoleão?

E as águias no céu corriam,
E os areais se volviam,
E horrendas feras bramiam
No imenso da solidão;
Mas as vozes do deserto
Se erguiam como um concerto
E vinham saudar-me perto:
— Tu és, senhor, Napoleão!

— Se sou! que Marengo o conte,
De Austerlitz o horizonte,
E aquela soberba ponte
Que transpus como o tufão!
E a minha vida de Ajácio,
E o meu sublime palácio,
E os pescadores do Lácio
Que só dizem — Napoleão!

Se o sou! que digam as plagas,
Onde do sangue nas vagas,
Coberta de enormes chagas
Dorme vil população;
Digam da Ásia as bandeiras,
Digam longas cordilheiras,
Que se abatiam, rasteiras,
Ao corcel de Napoleão!

Se o sou! diga Santa Helena
Onde a mais sublime cena
Fechou tranqüila e serena
Minha história de Titão,
Digam as ondas bravias,
Digam torvas penedias,
Onde as rijas ventanias
Vêm murmurar: — Napoleão.

E serei! do céu, da glória,
Nem dos bronzes da memória
Nem das páginas da história
Meus feitos se apagarão!
Assim na rocha isolada
Pelas espumas banhada,
Disse a sombra desterrada,
De prantos lavando o chão.

As névoas rolam nos céus,
Da noite escura nos véus
Soltam negros escarcéus
Rugidos de imprecação;
Mas das sombras a espessura
A face da onda escura,
O salgueiro que murmura
Tudo fala — Napoleão!

Leia também: Ao Cair da Noite, de Auta de Souza

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