Paranaguadas, de Cruz e Sousa



PARANAGUADAS


Que importa que tu fales
Que importa que tu files
Que importa que não cales,
Que importa que tu fales
Que importa que te rales,
Que importa-me essa bílis
Que importa que tu fales
Que importa que tu files.

João da Cruz e Sousa


SIDERAÇÕES

 Para as Estrelas de cristais gelados
 As ânsias e os desejos vão subindo,
 Galgando azuis e siderais noivados
 De nuvens brancas a amplidão vestindo...

 Num cortejo de cânticos alados
 Os arcanjos, as cítaras ferindo,
 Passam, das vestes nos troféus prateados,
 As asas de ouro finamente abrindo...

 Dos etéreos turíbulos de neve
 Claro incenso aromal, límpido e leve,
 Ondas nevoentas de Visões levanta...

 E as ânsias e os desejos infinitos
 Vão com os arcanjos formulando ritos
 Da Eternidade que nos Astros canta... 


João da Cruz e Sousa - Broquéis
MÚMIA

 Múmia de sangue e lama e terra e treva,
 Podridão feita deusa de granito,
 Que surges dos mistérios do Infinito
 Amamentada na lascívia de Eva.

 Tua boca voraz se farta e ceva
 Na carne e espalhas o terror maldito,
 O grito humano, o doloroso grito
 Que um vento estranho para os limbos leva.

 Báratros, criptas, dédalos atrozes
 Escancaram-se aos tétricos, ferozes
 Uivos tremendos com luxúria e cio...

 Ris a punhais de frígidos sarcasmos
 E deve dar congélidos espasmos
 O teu beijo de pedra horrendo e frio!... 

João da Cruz e Sousa - Borquéis
EM SONHOS...

 Nos Santos óleos do luar, floria
 Teu corpo ideal, com o resplendor da Helade...
 E em toda a etérea, branda claridade
 Como que erravam fluidos de harmonia...

 As Águias imortais da Fantasia
 Deram-te as asas e a serenidade
 Para galgar, subir à Imensidade
 Onde o clarão de tantos sóis radia.

 Do espaço pelos límpidos velinos
 Os Astros vieram claros, cristalinos,
 Com chamas, vibrações, do alto, cantando...

 Dos santos óleos do luar envolto
 Teu corpo era o Astro nas esferas solto,
 Mais Sóis e mais Estrelas fecundando! 

João da Cruz e Sousa - Borquéis

LUBRICIDADE

 Quisera ser a serpe venenosa
 Que dá-te medo e dá-te pesadelos
 Para envolver-me, ó Flor maravilhosa,
 Nos flavos turbilhões dos teus cabelos.

 Quisera ser a serpe veludosa
 Para, enroscada em múltiplos novelos,
 Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
 E babujá-los e depois mordê-los...

 Talvez que o sangue impuro e flamejante
 Do teu lânguido corpo de bacante,
 Da langue ondulação de águas do Reno

 Estranhamente se purificasse... 


Paranaguadas Cruz e Souza



POEMAS HUMORÍSTICOS E IRÔNICOS DE CRUZ E SOUSA
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