5 Poemas Fantásticos de João de Cruz e Sousa

5 Poemas Fantásticos de João de Cruz e Sousa

ESCRAVOCRATAS


Oh! Trânsfugas do bem que sob o manto régio
Manhosos, agachados — bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
Ardentes do olhar — formando uma vergasta
Dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
E vibro-vos à espinha — enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso, extraordinário —
Da branca consciência — o rútilo sacrário
No tímpano do ouvido — audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
Castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar! 

João da Cruz e Sousa

CRISTO DE BRONZE


 Ó Cristos de ouro, de marfim, de prata,
 Cristos ideais, serenos, luminosos,
 Ensangüentados Cristos dolorosos
 Cuja cabeça a Dor e a Luz retrata.

 Ó Cristos de altivez intemerata,
 Ó Cristos de metais estrepitosos
 Que gritam como os tigres venenosos
 Do desejo carnal que enerva e mata.

 Cristos de pedra, de madeira e barro...
 Ó Cristo humano, estético, bizarro,
 Amortalhado nas fatais injúrias...

 Na rija cruz aspérrima pregado
 Canta o Cristo de bronze do Pecado,
 Ri o Cristo de bronze das luxúrias!... 

João da Cruz e Sousa - Broquéis

CLAMANDO...


 Bárbaros vãos, dementes e terríveis
 Bonzos tremendos de ferrenho aspecto,
 Ah! deste ser todo o clarão secreto
 Jamais pôde inflamar-vos, Impassíveis!

 Tantas guerras bizarras e incoercíveis
 No tempo e tanto, tanto imenso afeto,
 São para vós menos que um verme e inseto
 Na corrente vital pouco sensíveis.

 No entanto nessas guerras mais bizarras
 De sol, clarins e rútilas fanfarras,
 Nessas radiantes e profundas guerras...

 As minhas carnes se dilaceraram
 E vão, das llusões que flamejaram,
 Com o próprio sangue fecundando as terras... 
João da Cruz e Sousa - Broquéis

BRAÇOS


 Braços nervosos, brancas opulências,
 Brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
 Alvuras castas, virginais alvuras,
 Lactescências das raras lactescências.

 As fascinantes, mórbidas dormências
 Dos teus abraços de letais flexuras,
 Produzem sensações de agres torturas,
 Dos desejos as mornas florescências.

 Braços nervosos, tentadoras serpes
 Que prendem, tetanizam como os herpes,
 Dos delírios na trêmula coorte...

 Pompa de carnes tépidas e flóreas,
 Braços de estranhas correções marmóreas,
 Abertos para o Amor e para a Morte! 
João da Cruz e Sousa - Broquéis


CANÇÃO DA FORMOSURA

 Vinho de sol ideal canta e cintila
 Nos teus olhos, cintila e aos lábios desce,
 Desce a boca cheirosa e a empurpurece,
 Cintila e canta após dentre a pupila.

 Sobe, cantando, à limpidez tranqüila
 Da tu'alma estrelada e resplandece,
 Canta de novo e na doirada messe
 Do teu amor se perpetua e trila...

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 Canta e te alaga e se derrama e alaga...
 Num rio de ouro, iriante, se propaga
 Na tua carne alabastrina e pura.

 Cintila e canta, na canção das cores,
 Na harmonia dos astros sonhadores,
 A Canção imortal da Formosura! 


Escravocratas, de Cruz e Sousa