segunda-feira, 15 de abril de 2019

Marcha Fúnebre, de Machado de Assis

Marcha Fúnebre, de Machado de Assis


O Deputado Cordovil não podia pregar olho uma noite de agosto de 186...
Viera cedo do Cassino Fluminense, depois da retirada do Imperador, e durante o
baile não tivera o mínimo incômodo moral nem físico. Ao contrário, a noite foi
excelente; tão excelente que um inimigo seu, que padecia do coração, faleceu antes
das dez horas, e a notícia chegou ao Cassino pouco depois das onze.
Naturalmente concluis que ele ficou alegre com a morte do homem, espécie
de vingança que os corações adversos e fracos tomam em falta de outra. Digo-te
que concluis mal; não foi alegria, foi desabafo. A morte vinha de meses, era
daquelas que não acabam mais, e moem, mordem, comem, trituram a pobre criatura
humana. Cordovil sabia dos padecimentos do adversário. Alguns amigos, para o
consolar de antigas injúrias, iam contar-lhe o que viam ou sabiam do enfermo,
pregado a uma cadeira de braços, vivendo as noites horrivelmente, sem que as
auroras lhe trouxessem esperanças, nem as tardes desenganos. Cordovil
pagava-lhes com alguma palavra de compaixão, que o alvissareiro anotava, e
repetia, e era mais sincera naquele que neste. Enfim acabara de padecer; daí o
desabafo.
Este sentimento pegava com a piedade humana. Cordovil, salvo em política,
não gostava do mal alheio. Quando rezava, ao levantar da cama: "Padre Nosso, que
estás no céu, santificado seja o teu nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua
vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; perdoa
as nossas dívidas, como nós perdoamos aos nossos devedores"... não imitava um
de seus amigos que rezava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores,
como dizia de língua; esse chegava a cobrar além do que eles lhe deviam, isto é, se
ouvia maldizer de alguém, decorava tudo e mais alguma cousa, e ia repeti-lo a outra
parte. No dia seguinte, porém, a bela oração de Jesus tornava a sair dos lábios da
véspera com a mesma caridade de ofício.
Cordovil não ia nas águas desse amigo; perdoava deveras. Que entrasse no
perdão um tantinho de preguiça, é possível, sem aliás ser evidente. Preguiça
amamenta muita virtude. Sempre é alguma cousa minguar força à ação do mal. Não
esqueça que o deputado só gostava do mal alheio em política, e o inimigo morto era
inimigo pessoal. Quanto à causa da inimizade, não a sei eu, e o nome do homem
acabou com a vida.
Coitado! descansou, disse Cordovil.
Conversaram da longa doença do finado. Também falaram das várias mortes
deste mundo, dizendo Cordovil que a todas preferia a de César, não por motivo do
ferro, mas por inesperada e rápida.
Tu quoque? perguntou-lhe um colega rindo.

Ao que ele, apanhando a alusão, replicou:
Eu, se tivesse um filho, quisera morrer às mãos dele. O parricídio, estando
fora do comum, faria a tragédia mais trágica.

Tudo foi assim alegre. Cordovil saiu do baile com sono, e foi cochilando no
carro, apesar do mal calçado das ruas. Perto de casa, sentiu parar o carro e ouviu
rumor de vozes. Era o caso de um defunto, que duas praças de polícia estavam
levantando do chão.
Assassinado? perguntou ele ao lacaio, que descera da almofada para
saber o que era.
Não sei, não, senhor.
Pergunta o que é.
Este moço sabe como foi, disse o lacaio, indicando um desconhecido, que
falava a outros.

O moço aproximou-se da portinhola, antes que o deputado recusasse ouvi-lo.
Referiu-lhe então em poucas palavras o acidente a que assistira.
Vínhamos andando, ele adiante. eu atrás. Parece que assobiava uma
polca. Indo a atravessar a rua para o lado do Mangue, vi que estacou o passo, a
modo que torceu o corpo, não sei bem, e caiu sem sentidos. Um doutor, que chegou
logo, descendo de um sobradinho, examinou o homem e disse que "morreu de
repente". Foi-se juntando gente, a patrulha levou muito tempo a chegar. Agora
pegou dele. Quer ver o defunto?
Não, obrigado. Já se pode passar?
Pode.
Obrigado. Vamos, Domingos.

Domingos trepou à almofada, o cocheiro tocou os animais, e o carro seguiu
até à Rua de S. Cristóvão, onde morava Cordovil.
Antes de chegar à casa, Cordovil foi pensando na morte do desconhecido.
Em si mesma, era boa; comparada à do inimigo pessoal, excelente. Ia a assobiar,
cuidando sabe Deus em que delícia passada ou em que esperança futura; revivia o
que vivera, ou antevia o que podia viver, senão quando, a morte pegou da delícia ou
da esperança, e lá se foi o homem ao eterno repouso. Morreu sem dor, ou, se
alguma teve, foi acaso brevíssima, como um relâmpago que deixa a escuridão mais
escura.
Então pôs o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do
Aterrado? Não seria dançando; os seus quarenta anos não dançavam. Podia até
dizer que ele só dançou até aos vinte. Não era dado a moças, tivera um afeição
única na vida, — aos vinte e cinco anos, casou e enviuvou ao cabo de cinco
semanas para não casar mais. Não é que lhe faltassem noivas, — mormente depois
de perder o avô, que lhe deixou duas fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver
consigo, fez duas viagens à Europa, continuou a política e a sociedade. Ultimamente
parecia enojado de uma e de outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu
mão delas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da Marinha, não passou de
sete meses. Nem a pasta lhe deu glória, nem a demissão desgosto. Não era
ambicioso, e mais puxava para a quietação que para o movimento.
Mas se lhe tivesse sucedido morrer de repente no Cassino, ante uma valsa ou
quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem.
Cordovil compôs de imaginação a cena, ele caído de bruços ou de costas, o
prazer turbado, a dança interrompida... e dali podia ser que não; um pouco de
espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, a orquestra continuando por instantes a oposição do compasso e da confusão. Não faltariam braços que o levassem para um gabinete, já morto, totalmente morto.
"Tal qual a morte de César", ia dizendo consigo.
E logo emendou:
"Não, melhor que ela; sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples
queda e o fim. Não sentiria nada."
Cordovil deu consigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o terror e
deixava a sensação da liberdade. Em verdade, antes a morte assim que após longos
dias ou longos meses e anos, como o adversário que perdera algumas horas antes.
Nem era morrer; era um gesto de chapéu, que se perdia no ar com a própria mão e
a alma que lhe dera movimento. Um cochilo e o sono eterno. Achava-lhe um só
defeito, — o aparato. Essa morte no meio de um baile, defronte do Imperador, ao
som de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas públicas, essa morte
pareceria de encomenda. Paciência, uma vez que fosse repentina.
Também pensou que podia ser na Câmara, no dia seguinte, ao começar o
debate do orçamento. Tinha a palavra; já andava cheio de algarismos e citações.
Não quis imaginar o caso, não valia a pena; mas o caso teimou e apareceu de si
mesmo. O salão da Câmara, em vez do Cassino, sem damas ou com poucas, nas
tribunas. Vasto silêncio. Cordovil em pé começaria o discurso, depois de circular os
olhos pela casa, fitar o ministro e fitar o presidente: "Releve-me a Câmara que lhe
tome algum tempo, serei breve, buscarei ser justo..." Aqui uma nuvem lhe taparia os
olhos, a língua pararia, o coração também, e ele cairia de golpe no chão. Câmara,
galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados correriam a erguê-lo;
um, que era médico, verificaria a morte; não diria que fora de repente, como o do
sobradinho do Aterrado, mas por outro estilo mais técnico. Os trabalhos seriam
suspensos, depois de algumas palavras do presidente e escolha da comissão que
acompanharia o finado ao cemitério...
Cordovil quis rir da circunstância de imaginar além da morte, o movimento e o
saimento, as próprias notícias dos jornais, que ele leu de cor e depressa. Quis rir,
mas preferia cochilar; os olhos é que, estando já perto de casa e da cama, não
quiseram desperdiçar o sono, e ficaram arregalados.
Então a morte, que ele imaginara pudesse ter sido no baile, antes de sair, ou
no dia seguinte em plena sessão da Câmara, apareceu ali mesmo no carro. Supôs
ele que, ao abrirem-lhe a portinhola, dessem com o seu cadáver. Sairia assim de
urna noite ruidosa para outra pacífica, sem conversas, nem danças, nem encontros,
sem espécie alguma de luta ou resistência. O estremeção que teve fez-lhe ver que
não era verdade. Efetivamente, o carro entrou na chácara, estacou, e Domingos
saltou da almofada para vir abrir-lhe a portinhola. Cordovil desceu com as pernas e a
alma vivas, e entrou pela porta lateral, onde o aguardava com um castiçal e vela
acesa o escravo Florindo.
Subiu a escada, e os pés sentiam que os degraus eram deste mundo; se
fossem do outro, desceriam naturalmente. Em cima, ao entrar no quarto, olhou para
a cama; era a mesma dos sonos quietos e demorados.

Veio alguém?
Não, senhor, respondeu o escravo distraído, mas corrigiu logo:
Veio, sim, senhor; veio aquele doutor que almoçou com meu senhor domingo
passado.

Queria alguma cousa?
Disse que vinha dar a meu senhor uma boa notícia, e deixou este bilhete
que eu botei ao pé da cama.

O bilhete referia a morte do inimigo; era de um dos antigos que usavam
contar-lhe a marcha da moléstia. Quis ser o primeiro a anunciar o desenlace, um
alegrão, com um abraço apertado. Enfim, morrera o patife. Não disse a cousa assim
por esses termos claros, mas os que empregou vinham a dar neles, acrescendo que
não atribuiu esse único objeto à visita. Vinha passar a noite; só ali soube que
Cordovil fora o Cassino. Ia a sair, quando lhe lembrou a morte e pediu ao Florindo
que lhe deixasse escrever duas linhas. Cordovil entendeu o significado, e ainda uma
vez lhe doeu a agonia do outro.
Fez um gesto de melancolia e exclamou a meia voz:

Coitado! Vivam as mortes súbitas!

Florindo, se referisse o gesto e a frase ao doutor do bilhete, talvez o fizesse
arrepender da canseira. Nem pensou nisso; ajudou o senhor a preparar-se para
dormir, ouviu as últimas ordens e despediu-se.
Cordovil deitou-se.
Ah! suspirou ele estirando o corpo cansado.

Teve então uma idéia, a de amanhecer morto. Esta hipótese, a melhor de
todas, porque o apanharia meio morto, trouxe consigo mil fantasias que lhe
arredarem o sono dos olhos. Em parte, era a repetição das outras, a participação à
Câmara, as palavras do presidente, comissão para o saimento, e o resto. Ouviu
lástimas de amigos e de fâmulos, viu notícias impressas, todas lisonjeiras ou justas.
Chegou a desconfiar que era já sonho. Não era. Chamou-se ao quarto, à
cama, a si mesmo: estava acordado.
A lamparina deu melhor corpo à realidade. Cordovil espancou as idéias
fúnebres e esperou que as alegres tomassem conta dele e dançassem até cansá-lo.
Tentou vencer uma visão com outra. Fez até urna cousa engenhosa, convocou os
cinco sentidos, porque a memória de todos eles era aguda e fresca; foi assim
evocando lances e rasgos longamente extintos. Gestos, cenas de sociedade e de
família, panoramas, repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo
diverso e remoto. Deixara de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se
estivesse agora a mastigá-los. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados,
cantos joviais e tristes, e palavra de todos os feitios. O tacto, o olfato, todos fizeram o
seu ofício, durante um prazo que ele não calculou.
Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. Não pôde, nem do lado direito, nem
do esquerdo, de costas nem de bruços. Ergueu-se e foi ao relógio; eram três horas.
Insensivelmente levou-o à orelha a ver se estava parado; estava andando, dera-lhe
corda. Sim, tinha tempo de dormir um bom sono; deitou-se, cobriu a cabeça para
não ver a luz.
Ah! foi então que o sono tentou entrar, calado e surdo, todo cautelas, como
seria a morte, se quisesse levá-lo de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os
olhos com força, e fez mal, porque a força acentuou a vontade que tinha de dormir;
cuidou de os afrouxar, e fez bem. O sono, que ia a recuar, tornou atrás, e veio
estirar-se ao lado deles, passando-lhe aqueles braços leves e pesados, a um tempo,
que tiram à pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quis
conchegá-los ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra à mão nem
tempo de ir buscá-la. Digo só o resultado do gesto, que foi arredar o sono de si, tão
aborrecido ficou este reformador de cansados.
Que terá ele hoje contra mim? perguntaria o sono, se falasse
Tu sabes que ele é mudo por essência. Quando parece que fala é o sonho
que abre a boca à pessoa; ele não, ele é a pedra, e ainda a pedra fala, se lhe batem,
como estão fazendo agora os calceteiros da minha rua. Cada pancada acorda na
pedra um som, e a regularidade do gesto torna aquele som tão pontual que parece a
alma de um relógio. Vozes de conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de
gente, uma janela batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava
então a rua e a noite de Cordovil. Tudo era propício ao sono.
Cordovil ia finalmente dormir, quando a idéia de amanhecer morto apareceu
outra vez. O sono recuou e fugiu. Esta alternativa durou muito tempo. Sempre que o
sono ia a grudar-lhe os olhos, a lembrança da morte os abria, até que ele sacudiu o
lençol e saiu da cama. Abriu uma janela e encostou-se ao peitoril. O céu queria
clarear, alguns vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que
desciam para o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era frio
ou medo, foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janela. Parece que era frio,
porque não sentia mais nada.
A gente continuava a passar, o céu a clarear, um assobio da estrada de ferro
deu sinal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do descanso; o céu fazia
economia de estrelas, apagando-as à medida que o sol ia chegando para o seu
ofício. Tudo dava idéia de vida. Naturalmente a idéia da morte foi recuando e
desapareceu de todo, enquanto o nosso homem, que suspirou por ela no Cassino,
que a desejou para o dia seguinte na Câmara dos Deputados, que a encarou no
carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrar com o sono, seu irmão mais velho, —
ou mais moço, não sei.
Quando veio a falecer, muitos anos depois, pediu e teve a morte, não súbita,
mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sai impuro de uma garrafa para
entrar purificado em outra; a borra iria para o cemitério. Agora é que lhe via a
filosofia; em ambas as garrafas era sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro
e pingado para a segunda. Morte súbita não acabava de entender o que era.

FIM

Machado de Assis



 Marcha Fúnebre, de Machado de Assis


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