quinta-feira, 2 de maio de 2019

A RIR, de Euclides da Cunha

A RIR, de Euclides da Cunha


A RIR

Eu já não creio mais... sombrio e calmo enfrento
_ O lábio ermo da prece, o peito ermo da crença _
A estrela _ rubra e imensa
De meu destino atroz, aspérrimo e sangrento!...
E embora sobre mim flamívoma suspensa
Em minh'alma os clarões fatais ela concentre,
Eu suporto-lhe bem o flamejante baque
_ Altivamente calmo _ entrincheirando-me entre
Uma canção de Byron
E um cálix de 'cognac'...
_ Não há dor que resista ao som de uma risada! _
Depois, se me exarcebo!
e tremo e choro erguendo a prece à alma magoada,
Mais me dói essa dor, mais esse mal é acerbo!
Assim _ eu resolvi, indiferente e frio
Cheio de orgulho e 'spleen' _ como um banqueiro inglês,
Sepultar na ironia o pranto meu sombrio...
Por isso quando atroz na triste palidez
De minha fronte paira amarga idéia _ eu rio!...
E quando pouco a pouco
Essa idéia me abate e vence-me alterosa,
De amargores repleta _ eu rio como um louco...
E se ela ainda dói mais, e forte e tenebrosa
Soe ao último ideal da minh'alma anilar,
E vencer-me de todo
Então _ eu me ergo mais _ e _ desvairado o olhar
_ Divinamente doudo _
Eu rio, rio muito _ até chorar!...

[1886]

A RIR, de Euclides da Cunha


Fonte
Domínio Público
Por Literatura em Série

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