quinta-feira, 2 de maio de 2019

CALABAR, Euclides da Cunha


CALABAR, Euclides da Cunha


CALABAR
[Título anterior: OS HOLANDESES]

(Fragmento)

Calabar _ só. Queda-se pensativo. Surge de um recanto do forte.
Fr. Manuel Salvador

FR. MANUEL _ (à parte) ... Não percamos esta hora.
(Alto, a Calabar)
Pois acreditas tu que é um leão?
(Calabar volta-se, surpreso)
Tu és
Um cachorro açulado às goelas do holandês!
CALABAR _ Padre! de onde surgiste? a que vens? e que queres?
E que palavra vil é esta com que feres
A quem sempre submisso ouviu a tua voz?
FR. MANUEL _ Escuta-me, meu filho... Eu precisava, a sós,
Longamente tratar contigo acerca de árdua
Empresa; e a situação em que te vês, aguardo-a
De muito impaciente...
CALABAR _ Tu achas então que é
Própria a divagações esta hora _ quando a fé
Que propagas e o Deus, o próprio Deus que adoras
Tem em roda seis mil espadas vencedoras
Do herético holandês... Tu queres gracejar
Ante o perigo, padre!?
FR. MANUEL _ (tranqüilo) _ Escuta, Calabar:
Sabes o que traduz este hábito sombrio?
É o túmulo de uma alma! Aqui dentro há mais frio,
Mais sombra e mais horror do que nas solidões
Dos cemitérios... Ouve: Há fundas aflições
De uma agonia atroz, no ser entregue ao duro
Martírio de arrastar este farrapo escuro.
Sabes tu por acaso avaliar o pavor
De alguém que arrasta em vida o próprio túmulo, e a dor
De quem cego da vida às galas soberanas
É um morto a vagar entre as paixões humanas,
Trágico e só 'perinde ao cadáver', só
Feito uma sombra vã e desprezível? Oh!
Se podes calcular a espantosa tristeza
De alguém em frente ao qual, imota, a natureza
Não tem voz, nem luz... Se podes idear
Sequer a ânsia de alguém destinado a escutar,
_ Monótona, a bater, a bater agoureira,
A mesma hora a bater durante a vida inteira!
Se podes avaliar tão mísero viver
E sofrimentos tais, deves compreender
Que eu não sei rir sequer, que eu não gracejo nunca!
[1887?]

CALABAR, Euclides da Cunha


Fonte
Domínio Público
Por Literatura em Série

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