quinta-feira, 2 de maio de 2019

CÉZARES E CZARES, de Euclides da Cunha


CÉZARES E CZARES, de Euclides da Cunha




CÉZARES E CZARES

Os Cézares cruéis,

Quando deixam da história a cena gigantéia,
Conservam geralmente a linha dos atores,
Que embora tenham tido espantosos papéis,
Nos quais dura se alteia
A desgraça espalhando angústias e terrores,
Querem que os acompanhe o aplauso da platéia...

Mário penetra em Roma
Pela sétima vez erguido ao consulado,
Na alma robusta o héróis traz sinistros desejos
De vingança, fatais anelos que não doma...
Sombrio, alucinado,
Não lhe quebram o assomo os eternos lampejos
Dos prélios que travou nas lutas do passado:
E a espada que fulgiu nas sombras da Germânia
Arranca-a em plena insânia,
Vibrando-a doidamente _ e doidamente a enterra
Em pleno coração da sua grande terra...

Mas vê-de-o no desterro...
_ Que imensa solidão! que pavoroso estrago! _
Velho, proscrito e só!... ninguém à dor lhe assiste.
Só lhe é dado rever o alcantilado cerro
O vulto enorme e vago
Da pátria, além do mar... Dizei-me o que mais triste:
As ruínas daquela alma ou as ruínas de Cartago.

César trucida a Gália
E a Síria e o Egito e a Ibéria... À indômita ambição
Não lhe basta, porém, o império vitorioso...
Desvaira: vai buscar nos campos de Farsália
Os sonhos de Pompeu; e em Tapsos _ glorioso _
A energia moral austera de Catão.
Triunfou! É feliz! Que importam dissabores
Dos rudes lutadores,
Feitos comparsas vis desses terríveis dramas,
Se Roma está em festa... e a Gália inteira em chamas!

No 'forum', certo dia:
'Tu quoque, Brute!' Estranho, este grito se ergueu.
Tumultua o recinto ante o ato formidável:
_ César ferido, o peito em sangue e a fronte fria
Vacila, mas o seu
Aprumo não destrói. Cai, num tombo impecável,
Tragicamente, aos pés das estátuas de Pompeu!

Ivã subjuga e prende
Ao carro triunfador os povos de dois mundos.
Reina, impera _ é o Czar! Sua terrível glória
Do pólo enregelado ao Cáucaso se estende.
Os Calmucos imundos
Cercam-lhe o trono e a vida. E ler-se sua história
É ouvir-se a todo instante os rumores profundos,
Que irrompem do tropel dos esquadrões bravios
Dos tártaros sombrios...
_ Imenso tropear que afoga os gritos cavos
E as doidas maldições de cem milhões de escravos!

CÉZARES E CZARES, de Euclides da Cunha


Fonte
Domínio Público
Por Literatura em Série

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