quinta-feira, 2 de maio de 2019

CRISTO, por Euclides da Cunha

CRISTO, por Euclides da Cunha


CRISTO 


[Publicado na "Revista da Família Acadêmica", Rio de Janeiro, jul. 1888. Dedicatória posterior.]

A Filinto d'Almeida

Era uma idade atroz... forte e grandiosa.
Levantando altivíssima a alterosa
E fulgurante coma
Nas ruínas das nações se erguia Roma...
Trágica e má _ das raças quebradas,
Das velhas raças de remota história,
Afogando a existência, a força e a glória
_ Num dilúvio flamívomo de espadas! _

Não havia aplacá-la, nem dos perros
A queixa vil, nem dos heróis nos ferros;
Embalde o pranto acerbo
Sufocando, Mitríades, soberbo,
Se erguera na Ásia aos rígidos embates
De férvidas paixões para, possante,
Lançar um trono no bulcão troante
Do torvelinho horrível dos combates!

Tombara Filopoeme _ altivo o aspeito,
Concentrando no velho e frio peito
Todo o vigor guerreiro,
Todo o heroísmo de um país inteiro...
_ E o que passou então foi sublimado _
A Grécia, que era morta, morta e escrava,
Transmudou-se num túmulo _ heróica e brava _
Para guardar seu último soldado...

No Egito, o horror dos dramas lutuosos...
Rotos, sombrios, pávidos, raivosos,
Os últimos heróis
Sofriam pela pátria... oh! dor atroz _
Oh! dor fatal que o coração adstringes!
E passavam, cingindo as velhas clâmides,
_ Entre a sombra funérea das pirâmides
E o olhar petrificado das esfinges!

A Ibéria exangue _ nem sequer o insano
Louco gemer do eterno amante _ o Oceano
Ouvia, lhe atirando às plantas frias
Grandes canções _ vestidas de ardentias...
Amante imenso, de um amor profundo,
Que mais tarde, grandioso, para erguê-la,
_ Não podendo engastá-la numa estrela _
Lançou-lhe aos pés _ um mundo!

Nos corações as recalcadas penas
Doíam sem um só gemido... apenas
Numa loucura brava.
O Parta palmo a palmo recuava;
No terreno sagrado de seus pais;
Caía _ como o raio _ fulminando,
E morria _ as espadas agitando
Como sabem morrer os imortais!
Mas de onde vinha esse fatal domínio?
Lançai à história o olhar. Vede:
Um triclínio.

Das taças arrebenta
Formidolosa a embriaguez sangrenta...
Um truão se ergue: em seu olhar cintila
A febre, às vozes doces de um saltério,
Ébrio e trôpego dança... Ei-lo Tibério...
_Tibério cambaleia _ e o mundo oscila!

Foi nessa idade atroz e má, repleta
De crimes, que Jesus, incruento atleta _
Ergueu como uma aurora,
Por entre a multidão, a fronte loura...
E nova vida palpitou na terra;
Vacilaram os ferros sanguinários
Nas manoplas dos rudes legionários;
_ Em frente à paz estremeceu _ a guerra...

Dissolveram-se em prantos os ressábios
Das concentradas dores, e nos lábios
Sublime, pairou esse
Bafejo ardente da nossa alma... a prece...
E livre dessas noites que se somem
Ante os fulgores da razão de um justo,
O mundo inteiro se soerguendo a custo,
Respirava p'la boca de um só homem!

Da antiga idade, os deuses combalidos
Oscilaram, quebrados, derruídos,
Ante o clarão brilhante
Daquela consciência rutilante...
E, cobardes, num círculo de lanças,
Cheios de um grande espanto, vacilaram
Os déspotas, torvados... e recuaram
Ante um homem cercado de crianças...

E quando ele caiu... o mundo antigo,
O seu ingrato e trágico inimigo,
_ Alucinado e insano _
Deslumbrou-se ante um quadro sobre-humano:
Aureolava-o ignota claridade...
E aquele morto... frio, macerado,
Tendo no lábio um riso ensangüentado,
Na espádua roxa _ erguia a Humanidade...
[1887?]

CRISTO, por Euclides da Cunha


Fonte
Domínio Público
Por Literatura em Série

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