sexta-feira, 24 de maio de 2019

DIES IRAE, Gonçalves Dias

DIES IRAE


Jaz o mundo corrupto! – a terra ingrata
Frutos de maldição produz somente;
E em quanto os homens ao mercado afluem,
Vazio o templo do Senhor se enluta,
Empoeira-se o altar, e pelas naves,
Gretadas, rotas pela mão do tempo,
De cânticos e preces deslembradas,
A voz de Deus já não reboa imensa!

Tudo porém conserva o mesmo aspecto:
O sol girando, e na aparência o mesmo,
Do ano as quadras compassado alterna;
E os astros, seus irmãos, gravitam sempre
D’abóbada celeste. A terra é a mesma;
As aguas pelos vales se deslizam,
Ou d’alpestres montanhas se despenham
Co’os mesmos sons, co’a mesma queda: as brisas
Inda conversam nos soturnos bosques;
A mulher, a mais bela criatura,
Nas suas próprias perfeições compraz-se,
Como quando, noEden, as pulcras formas
Pasmou de ver representadas n’agua,
E de as ver se ufanou. Inda conserva
O mesmo orgulho e inteligência o homem,
O rei da criação, o deus criado,
De quando vinham, por pedir-lhe os nomes,
Cetáceos, aves e os répteis e aquelas
Criaturas-montanhas, que passaram
Entre Adão e Noé à flor da terra!

Tudo o mesmo se mostra; mas a alma,
Esse mundo interior, esse outro templo,
Onde gravara o próprio Deus seu nome,
Como os templos de pedra, jaz em lume,
Jaz como o prédio a desfazer-se em ruínas.
Onde um guarda solícito não mora,
E entregue as aves más, que em chilros pregam,
Que ali, na ausência do senhor imperam.
Da divina bondade cheio o vaso
Já transborda de cólera i justiça
E o largo rio do perdão saudável,
Que mais não corra, impece: Santas águas
Por cuja causa os séculos já viram,
Sem justa punição, ofensas graves;
Que o Senhor consentisse persistirem
Os maus no mal, à espera d’emendá-los;
Que triunfasse a malvadeza; e o crime,
Vexando os bons, senhoreasse a terra.

Mas Deus, que fora outrora pai clemente,
Dando começo ao reino da justiça,
Eu austero juiz se há convertido.
Como um carro, que vai d’encontro ao abismo,
Perfaz o sol precipite o seu giro,
Indo a tocar a temerosa meta
Prevista dos profetas. Um arcanjo
Com mão robusta inda retém os elos
Da cadeia do tempo, em quanto a outra
Da vida o livro volumoso sela
Com sete brônzeos selos. Deus ofeso
Tira os olhos do mundo, e o mundo há sido!

Quem podera pintar as discordâncias
Em que labora a natureza! Crescem
Da terra ígneos vapores, sufocando
O que respira, o que tem vida; os montes
Em crateras se rasgam, que vomitam
Rumo e lava incessante; o mar s’empola
E em fúria ardendo, arroja aos altos cimos
Cruzados vagalhões, qual se tentara
Sovertê-los; os ventos se contrastam!
Novos prodígios, novos monstros surgem!
O mar se torna em sangue, o sol em fogo,
O Universo em mansão d’aflitas fores,
O homem sofre, blasfema e desespera,
E vendo ou mundos desabar precipiteis,
Um grito solta d’horroroso transe,
Como de nau, quem alto mar s’afunda
E rola os restos n’amplidão das águas.

Satisfez-se o Senhor. Que resta? – O caos,
O horror, a confusão, o vulto enorme
Do tempo, que escurece o fundo abismo,
Onde por todo o sempre jaz cativo;
E da morte o cadáver gigantesco
Quase ocupando a superfície inteira
Dum mar de chumbo, escuro e sem rumores.
Da glória do Senhor um raio apenas,
Lá dos confins do espaço despedido,
Fere da morte o rosto macilento
De tudo quanto foi, e quanto existe!

Dies Irae
Gonçalves Dias

DIES IRAE, Gonçalves Dias

Fonte


Por Literatura em Série

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