sábado, 11 de maio de 2019

LIRISMO A DISPARADA, de Euclides da Cunha

LIRISMO A DISPARADA


Eu sou por certo um ente admirável,
A quem nenhuma penitência salva.
Não tiro o meu chapéu à Divindade...
"E dizem que perdi a Estrela-d'alva"...

E tão viciado que ainda hoje, à noite,
Um pelotão de serafins risonhos,
Em pleno 'boulevard' da Via-Láctea,
Prendeu-me porque eu estava ébrio... de sonhos!

Escândalo no céu. Os santos todos,
Perdendo as composturas consagradas,
Atiravam-me estrelas, como pedras,
E riam-se a bandeiras despregadas.

Um desacato escandaloso... e como
O Supremo Fiscal, nessa emergência,
Não conteve os seráficos garotos,
Denunciei à polícia a Providência.

Fiz bem. A rixa é velha. Há muito tempo
Que eu, o Voltaire e o Comte nem o intento
Podemos ter de passear à noite
Na grande praça azul do Firmamento.

Se o fazemos, apagam-se as lanternas
Dos céus, num pronto e momentâneo eclipse,
E vemo-nos nas trevas, entre os coices
Da besta divinal do Apocalipse!

Não vou mais lá, por isso... Mas que importa...
Por que falar nesses sucessos tristes?
Trancam-me os céus: eu tenho o teu olhar...
Nem me faz falta Deus _ pois tu existes!

LIRISMO A DISPARADA, de Euclides da Cunha



Fonte
Portal Domínio Público
Por Literatura em Série

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