quinta-feira, 2 de maio de 2019

ÚLTIMO CANTO, de Euclides da Cunha

ÚLTIMO CANTO, de Euclides da Cunha



ÚLTIMO CANTO


I

Amigo!... estas canções, estas filhas selvagens
Das montanhas, da luz, dos céus e das miragens
Sem arte e sem fulgor, são um sonoro caos
De lágrimas e luz, de plectros bons e maus...
Que ruge no meu peito e no meu peito chora,
Sem um 'fiat' de amor, sem a divina aurora
De um olhar de mulher...
perfeitamente o vês,

Não sei metrificar, medir, separar pés...
_ Pois um beijo tem leis? a um canto um núm'ro guia?
Pode moldar-se uma alma às leis da geometria?

Não tenho ainda vinte anos.
E sou um velho poeta... a dor e os desenganos
Sagraram-me mui cedo, a minha juventude
É como uma manhã de Londres _ fria e rude...

Filho lá dos sertões nas múrmuras florestas,
Nesses berços de luz, de aromas, de giestas _
Onde a poesia dorme ao canto das cachoeiras,
Eu me embrenhava só... as auras forasteiras
Me segredavam baixo os cantos do mistério
E a floresta sombria era como um saltério,
Em cujas vibrações minh'alma _ ébria _ bebia
Esse licor de luz e cantos _ a Poesia...
Mas, cedo, como um elo atroz de luz e pó
Um sepulcro ligara a Deus minh'alma... e só
Selvagem, triste e altivo, eu enfrentei o mundo,
Fitei-o, então, senti de meu cérebro no fundo
Rolar, iluminando a alma e o coração,
Com a lágrima primeira _ a primeira canção...
Cantei _ porque sofria _ e, amigo, no entretanto,
Sofro hoje _ porque canto.
Já vês, portanto, em mim esta arte de cantar
É um modo de sofrer , é um meio de gozar...
Quem há que meça aí de uma lágrima o brilho?
Pois erra-se sofrendo?...
Eu nunca li Castilho.
Detesto francamente esses mestres cruéis
Que esmagam uma idéia sob quebrados pés...
Que vestem co'um soneto esplêndido, sem erro,
Um pensamento torto, encarquilhado e perro,
Como um correto fraque às costas de um corcunda!...

Oh! sim, quando a paixão o nosso ser inunda,
E ferve-nos na artéria, e canta-nos no peito,
_ Como dos ribeirões o borbulhoso leito,
Parar _ é sublevar _
Medir _ é deformar!
Por isso amo a Musset e jamais li Boileau.

II

Esse arquiteto audaz do pensamento _ Hugo _
Jamais sói refrear o seu verso terrível,
Veloce como a luz, como o raio, incoercível!
Se a lima o toca, ardente, audaz como um corcel,
Às esporas revel,
Na página palpita e ferve e freme e estoura
Como um raio a vibrar no seio de uma aurora...
Que lime-se num verso uma cadência má,

Que p'los dedos se contem as sílabas _ vá lá!
Mas que um tipão qualquer _ como muitos que eu vejo _
Espiche, estique e encolha a tal hora e sem pejo
Um desgraçado verso, e, após tanto medir,
Torcer, brunir, sovar, limar, polir, polir,
No-lo venha a trazer, às pobres das ovelhas,
Como um casto 'bijou', feito de sons e luz,
Isto revolta e amola...
Mas veja ao que conduz
O vago rabiscar de uma pena sem norte:
Falava-te de Deus, de mim, da estranha sorte
Que aniila a poesia _ e acabo num jogral,
Num lorpa, num boçal,
Que nos recebe a pés, e faz do amor uma arte.
Deixemo-lo de parte.

III

Escuta-me, eu teria um imenso prazer
Se podendo domar, curvar, forçar, vencer
O cér'bro e o coração, fosse este último canto
O fim de meu sonhar, de meu cantar, porquanto...

ÚLTIMO CANTO, de Euclides da Cunha



Fonte
Domínio Público
Por Literatura em Série

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